Artigo do Renato Janine Ribeiro na Folha de hoje:

Superávit etário

AUMENTO DA EXPECTATIVA DE VIDA TORNARÁ PRIORITÁRIO, NO SÉCULO 21, O DEBATE SOBRE O SENTIDO DA EXISTÊNCIA

RENATO JANINE RIBEIRO
ESPECIAL PARA A FOLHA

Questões de valor são eminentemente filosóficas: constituem a matéria-prima da ética. Nos últimos anos, boa parte da discussão pública sobre o bem agir tratou de temas que colocam em foco a própria vida. Isso pode ter começado com a proposta de descriminar o aborto e depois passou para a pergunta sobre a boa morte.
Se há um ponto em comum entre as discussões sobre o aborto, a eutanásia (e as formas de morte voluntária digna) e o uso das células-tronco para pesquisa, é este: a vida se tornou objeto de intensa discussão ética.
Esse debate não é fácil, porque coloca em cena a vida que não virá à luz, no caso do aborto ou talvez dos embriões, ou a vida que tenha fim abreviado. Em outras palavras, é um debate sobre a vida que inclui a morte ou a não-vida. Daí que seja muito delicado, fácil de tomar pelas paixões.

Transcrevo o resto da matéria abaixo do fold, para os sem-Folha.

É um texto com algumas boas questões, creio eu. Curiosamente, hoje mesmo, ao ver uma velhinha na fila do açougue, aparentemente bastante idosa mas ao mesmo tempo bastante saudável e lúcida, eu pensava sobre estas coisas. Por exemplo: suponho que em não mais que vinte anos será possível suprir a falência de órgãos a partir de transplantes feitos a partir de células do próprio doente. Isso provavelmente aumentará a sobrevida humana em muitas décadas. Muito antigamente, antes da invenção dos antibióticos, morria-se de infecções e septicemias; depois foi a era da morte por problemas cardíacos; e hoje vivemos a era do câncer. Talvez em mais algum tempo vivamos na era da morte por Alzeheimer ou de pura senilidade, ou falta de vitalidade do sistema nervoso central. O texto do Janine coloca alguns pontos interessantes:

Simone de Beauvoir tem um belo romance, “Todos os Homens São Mortais”. Um personagem vive séculos. Cansa-se. Estaremos perto disso? Vivemos uma situação em que o estoque de vida possível ultrapassa a possibilidade de lhe atribuirmos valor, sentido, dignidade?

Será possível cansar de viver? Depende. Em primeiro lugar, depende de em que condições físicas e mentais se dá essa sobrevivência, é claro: não parece haver grande vantagem em viver por longo tempo, mas em más condições de saúde. Evidentemente essa afirmativa deve ser relativizada à luz de certos resultados dos estudos sobre “felicidade”. Por exemplo, recentemente ficou claro que pessoas que são submetidas a amputações retornam rapidamente a um estado de felicidade subjetiva comparável ao que tinham antes. Um novo estado de saúde pode ser muito menos suportável quando pensamos nele antes de efetivamente estarmos nele.

Hoje, já a herança perdeu sentido. É rara a pessoa que, com a herança proveniente da morte dos pais, constrói sua vida. Geralmente, herda-se quando já não se precisa disso.

Isso é interessante. De fato, o instituto da herança faz sentido em um mundo onde se morre cedo, antes de os filhos serem capazes de viver por si próprios. Depois disso ele passa a ser, de fato, um instrumento de concentração de rendas. Mas que grau de concentração de renda é possível em um mundo onde o envelhecimento é bloqueado? Há uma novela de Bruce Sterling chamada “Holy Fire” onde a sociedade é uma gerontocracia, e pessoas muito velhas acumulam enormes quantidades de dinheiro, que lhes permite pagar por métodos cada vez mais sofisticados de prolongar a vida _ o que lhes permite acumular ainda mais dinheiro _ em um ciclo infindável, onde os jovens são poucos e não têm muita esperança.

Há espaço para todos? Emprego, ar, água, comida? Questões sociais, sim, de intendência, sim, mas que repercutem em nossas escolhas.”

Outro dia escutei pela primeira vez o termo “Deep Green”. Ele refere-se ao termo correlato “deep ecology“, e trata-se de uma facção do movimento ecologista (criada pelo ecologista e filósofo norueguês Arne Næss) que acredita que nossa civilização é inerentemente inimiga do meio ambiente e que sua expansão será insustentável.  Genericamente, trata-se de saber se há limites ao crescimento; na medida em que se defina “crescimento” como a agregação de mais e mais mercadorias, bens de capital, equipamentos e infra-estrutura para mais e mais pessoas, parece claro que sim, há limites ao crescimento.

Há quem advogue que o advento dos “bens de informação” altere tudo isso.  Façamos um experimento mental.

Imaginemos que mais e mais pessoas se conectem ao “Second Life“, e que se descubram maneiras de tornar a experiência virtual mais e mais realista.  Suponha que no limite seja possível recriar o mundo real com tal detalhe, e promover um tipo de conexão entre a pessoa e o mundo virtual, a ponto de ambos, mundo real e virtual se tornarem indistinguíveis um do outro.  Nessas condições, poderíamos facilmente migrar para o mundo virtual a maior parte do dia _ trabalhar, estudar e se divertir no mundo virtual, “voltando” ao mundo real apenas para realizar as atividades básicas de manutenção do corpo físico.

Isso teria muitas vantagens.  Por exemplo, poderíamos ter cada vez menos bens materiais “reais”, e cada vez mais bens materiais “virtuais”.  Poderíamos viajar instantaneamente por inumeráveis mundos virtuais.  Talvez pudéssemos ter até sexo virtual.

A questão é: mesmo nesse mundo, haveria limites para o crescimento?

A resposta a esta pergunta depende de darmos uma boa olhada no funcionamento do Linden Labs, a empresa onde funciona o Second Life atualmente.  Eis um trecho do livro “The Big Switch“, do Nick Carr, sobre o Second Life:

O programa (que gera o mundo virtual) roda em centenas de servidores que estão abrigados em dois data centers, um em São Francisco e o outro em Dallas, que não são de propriedade do Linden Labs e sim por companhias que prestam serviços de computação para terceiros.  Cada servidor contém, por sua vez, quatro computadores virtuais, cada um dos quais controlando 16 acres de território no Second Life.  Todos esses computadores virtuais e reais trabalham em conjunto para criar o vasto mundo que os residentes experimentam ao jogar o jogo.

Segundo o site da empresa, no dia 10 de abril, última estatística disponível, existiam 13,243,675 avatares (isto é, jogadores, ou habitantes) no Second Life.  É bastante gente, mas muito menos gente do que estamos falando em minha utopia virtual.  Ainda assim, Nick Carr calculou que um avatar do Second Life consome tanta energia quanto um brasileiro médio.  Wow.

De fato, apenas um dos gigantescos data centers do Google, o localizado em The Dalles, consome 103 megawatts de energia _ o suficiente para alimentar uma cidade (americana) de 82.000 habitações. Mais sobre isso aqui e aqui.  Li que recentemente o Departamento de Energia norte-americano chamou os grandes proprietários de data centers para conversar, pois seu crescimento exponencial já começa a botar pressão na geração de energia dos EUA.  E a Matrix ainda está só esquentando…


Por exemplo, o caso dos embriões congelados, que serão descartados e que poderiam ser utilizados para curar doentes. Alega o ex-procurador-geral da República [Claudio Fonteles] que se trata de formas de vida, que serão exterminadas, para um uso científico que não é garantido e que, além disso, poderia ser obtido de outras formas.
Respeito plenamente o dr. Fonteles e acrescento que, se ele ou outros se inspiram para suas escolhas éticas em convicções religiosas, isso é legítimo; pois uma religião sem ética o que é? O que resta a uma religião se não tiver ética?

Muitas posições
Mas não concordo com ele nessa questão porque o embrião ainda não tem condições de viver. Ele é uma possível vida. Casais congelam geralmente vários embriões, para usar um ou poucos. Evidentemente, a questão não é o embrião ou o feto ser capaz de viver por si só (como alegam alguns adversários do dr. Fonteles).
Pois o recém-nascido ou mesmo a criança pequena dependem do adulto para viver, e só um monstro daria ao pai ou à mãe o direito de matá-los.
Mas o caso dos embriões não é o do aborto. Não devemos deixar que uma questão instrumentalize a outra.
Há pessoas que aceitam o uso dos embriões congelados que, não estando implantados no útero, ainda não estão a caminho de viver, mas não admitem o aborto. Outras defendem o direito ao aborto, como mal menor; outras o defendem, sem limites.
São muitas posições diferentes. Penso que o ponto decisivo a assegurar é que, mesmo convergindo todas essas questões no limite entre a vida e a morte voluntária, não sejam misturadas. O debate sobre os embriões tem-se confundido com o do aborto, o que só confunde as pessoas.
São questões distintas.

Passo adiante
Onde entra a morte voluntária? Com exceção de poucas culturas aristocráticas, como a romana e a japonesa, que lhe atribuíram alta dignidade moral, o suicídio assusta.
O judaísmo e o cristianismo o condenam -talvez porque a criatura toma em mãos uma decisão que caberia a Deus, ao destino ou ao acaso. Ele também pode, claro, ser sinal de um desespero enorme, de uma solidão insuportável.
Mas há mortes voluntárias que apenas expressam o cansaço com a vida, a sensação de ter completado uma existência, o desejo de não suportar a degradação física extrema.
Dessas mortes ainda pouco sabemos. Têm a ver com a expansão do tempo de vida, que dobrou no último século. Em breve, saltaremos a barreira dos 115 anos de vida, que é o recorde de vida no Cáucaso. Agüentaremos?
Simone de Beauvoir tem um belo romance, “Todos os Homens São Mortais”. Um personagem vive séculos. Cansa-se.
Estaremos perto disso? Vivemos uma situação em que o estoque de vida possível ultrapassa a possibilidade de lhe atribuirmos valor, sentido, dignidade? Zombava-se, outrora, de padres horrorizados ante o número de espermatozóides descartados a cada ato sexual, ao perderem a batalha por fecundar o óvulo.
É claro que o espermatozóide sozinho não gera vida.
Mas o embrião já é um passo adiante. A vida longa em demasia também pode ser um avanço, um excedente, um superávit. Temos, social e ecologicamente, condições de alongar a ocupação humana da biosfera?
Hoje, já a herança perdeu sentido. É rara a pessoa que, com a herança proveniente da morte dos pais, constrói sua vida. Geralmente, herda-se quando já não se precisa disso.
Não temos mais a substituição do pai pelo filho, nem mesmo a do avô pelo neto. Quatro gerações sucessivas podem coexistir.
Há espaço para todos? Emprego, ar, água, comida? Questões sociais, sim, de intendência, sim, mas que repercutem em nossas escolhas.
Além disso, cada vez mais convivemos com idosos que, por qualquer razão, dizem que cansaram. Podem estar lúcidos, mas sem força física. Podem estar fortes, mas sem lucidez. Podem ter perdido a companheira, o trabalho, os entes queridos, enfim, o que lhes dava qualidade na vida.
Morrer será uma derrota? A morte será a verdade da vida? O suicídio dirá, em retrospecto, que uma vida falhou? Não. Uma vida longa pode ter uma sucessão de sentidos. Pode ter longos anos de felicidade e longos de tristeza.

Morte datada
Em várias religiões conta-se uma mesma história: que a poucas pessoas, extremamente sábias, Deus informou em que dia morreriam. Alguém precisa ser muito espiritualizado para suportar esse conhecimento.
Não é a mesma coisa que agonizar num hospital. Não é a morte como desenlace de uma vida morrente. Talvez esse seja o reverso da morte voluntária: a data conhecida da morte.
Disse que muitas religiões não suportam a morte escolhida. Mas nós mesmos provavelmente preferimos a morte como surpresa, a morte sem data marcada ou a morte como desfecho de uma doença horrível.
A associação de um destino inexorável, que recende a surpresa, com o conhecimento de que o dia fatal está conhecido, é talvez insuportável. Estas reflexões têm uma única moral: em tempos secularizados, leigos, discutir a não-vida é uma das formas mais apuradas de pensar a moral, o destino, talvez uma nova dimensão do mundo espiritual.