Sem tipos chineses, sem Gutemberg.
Sem Gutemberg, sem Bíblias em massa.
Sem Bíblias em massa, sem protestantismo.
Sem protestantismo, sem capitalismo (bom, foi o que disse Max Weber, vão se queixar lá com ele).
Ou seja:
Europa – China = Feudalismo Papista



25 comments
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Abril 10, 2008 às 10:21 am
João Paulo Rodrigues
Haha. Muito boa.
Abril 10, 2008 às 10:49 am
carol
Entre Gutemberg e a biblia tá faltando alguma coisa…
Abril 10, 2008 às 11:12 am
ohermenauta
“Em 1450, já seguro de sua arte, Gutemberg se propõe a imprimir a Bíblia e consegue um empréstimo de 800 florins junto a dois negociantes, João Füst e Pedro Schaeffer. Os custos aumentam e Gutemberg pede mais dinheiro emprestado, oferecendo como garantia a penhora de sua própria oficina. Em 1455, Füst executa o crédito; Gutemberg não tem como saldar a dívida; a Bíblia não estava pronta. A oficina cai mesmo em poder de Füst e Schaeffer que, finalmente, em 1456, imprimem a “Bíblia de 42 linhas”, a primeira bíblia impressa e, por suas 642 páginas, o primeiro atestado da eficiência da tipografia. Sua tiragem foi de, aproximadamente, 200 exemplares, dos quais, incluídos os incompletos, cerca de 48 ainda sobrevivem, segundo informa o Museu Gutemberg de Mainz.
Entretanto, vale ressaltar que o invento de Gutemberg barateou o livro, tornando a cultura acessível a um maior número de pessoas. Os livros manuscritos eram caríssimos, principalmente porque exigiam sempre o mesmo trabalho, o mesmo tempo de feitura, a mesma mão-de-obra, enfim, qualquer fosse o número de exemplares produzidos. Com a tipografia, tudo muda. Depois de feita a composição do texto com os tipos de metal, muitas, muitíssimas, infinitas cópias podiam ser tiradas com o aproveitamento da mesma mão-de-obra inicial, cujo custo vai se diluindo nos exemplares sucessivos.”
Aqui.
Mas isso aí eu tenho certeza que você sabe. Como diziam no Rio, “qual é o porém”?
Abril 10, 2008 às 1:12 pm
Rafael Figueira
Deixa eu ver se entendi: vc acredita mesmo q se chineses nao tivessem inventado seus tipos moveis, a mesma invencao nao teria aparecido na Europa? (como se europeus da mesma epoca nao estivessem tentando inventar praticamente a mesma coisa…)
Sim ou nao, a sua sequencia linear de eventos aponta outras caracteristicas singulares da cultura europeia: mesmo em seus momentos mais miticos e supersticiosos (religiao), ainda assim existe autocritica e reflexao racional para questionar a si mesma, impulsionar mudancas, saindo da cultura estacionada no tempo. Enquanto isso os chineses, depois do tipo movel, publicaram milhares de tratados filosoficos durante o seculo XVI… ou nao?
Abril 10, 2008 às 3:04 pm
marcos
Eita, que coisa chata, o outro agora já voltou a correr atrás do próprio rabo…
E vai lá tratado filosófico significar alguma superioridade objetiva?!
Abril 10, 2008 às 3:48 pm
ohermenauta
Ô Rafael,
Dá um tempo, mermão. Você vira pra mim e me diz que “o Ocidente ia inventar a Imprensa DE QUALQUER JEITO”, tipo assim, com a mesma fé de um torcedor do Botafogo na conquista da Libertadores, e depois o raciocínio linear é o meu??
Pelo contrário. A evolução científica e tecnológica é que não é linear. Os tedescos, que fizeram tão bonito com a imprensa, morreram com o mico da bomba atômica na mão _ enveredaram por um caminho errado e deixaram a bola quicando para os anglos. Nada é tão automático, caríssimo.
Abril 10, 2008 às 8:10 pm
Rafael Figueira
1) Nao, eu *perguntei* se vc acha q os tipos moveis nao teriam aparecido na Europa. Pq na verdade eles ja’ tinham aparecido. A introducao dos bloquinhos chineses, de madeira, deu um salto de qualidade; mas na epoca de Gutemberg ja’ haviam abandonado os de madeira em favor dos de metal. A ideia de q “sem tipos chineses sem Gutenberg” e’ didatica mas errada.
2) Vc colocou tres ou quatro linhas encadeadas: nao negue q o raciocinio e’ linear e simplista.
3) Nao e’ o “tratado filosófico” q representa superioridade objetiva, mas a capacidade de enxergar alem do obvio, expandir uma invencao e aplicar em outras situacoes, utilizar um conceito e ampliar seu significado.
Abril 11, 2008 às 1:29 am
LM
Rafael,
não sei se havia tratados filosóficos sendo produzidos na China do século XVI, mas sei que na Europa do século XVII, Leibniz se interessou bastante por filosofia chinesa. Tá de bom tamanho?
Abril 11, 2008 às 11:11 am
Rogério
“… mas sei que na Europa do século XVII, Leibniz se interessou bastante por filosofia chinesa.”
Voltaire (o oposto filosófico de Leibniz) também. Eles não se interessaram pela filosofia chinesa (sobre a qual, aliás, se sabia muito pouco), eles se interessaram pela cultura chinesa (assim como nos interessamos pela cultura das tribos africanas) e pelo fato da China parecer não ter uma religião, mas uma moralidade secular. Ou seja, a China chamava a atenção-como ainda hoje chama- por ser diferente dos outros países. Que eu saiba, nem Voltaire abandonou seu racionalismo nem Leibniz seu cristianismo. Nenhum deles viu nada de útil na China para seus sistemas. A questão fica: por que a China não fez nada com a imprensa? Aliás, por que a China rejeitou os conhecimentos ocidentais enquanto o Japão os adaptou à sua civilização? Não foi “um imperador”. A China consistentemente rejeitou a técnica ocidental, só começando a recuperar o atraso a partir de Deng Xiaoping (exceção feita à tecnologia bélica que já tinha alcançado a Bomba em 1964). É no mínimo estranha essa “forçação de barra” para fingir que a Civilização Ocidental não esteve sempre à frente da China (até agora, pelo menos).
Abril 11, 2008 às 1:16 pm
LM
Rogério,
na verdade, Leibniz não chegou a completar seu tratado sobre a religião natural dos chineses, mas o argumento dele era que ela era, em última instância, equivalente à religião natural cristã. (Aliás, dizer que a moral é parte da cultura, mas não da filosofia chinesa, é bastante seletivo.)
Abril 11, 2008 às 1:37 pm
Rogério
Traduzindo: a cultura chinesa, para Leibniz, é boa no que parece com o Cristianismo. Não me parece um elogio à cultura chinesa. Já outros se viram atraídos justamente pela moral sem Cristianismo- não porque essa moral fosse boa, mas porque era uma prova de que se poderia ter uma “moral laica”. Agora, nenhum desses intelectuais nunca achou ter algo a aprender da Cultura chinesa. Por que será se a China era tão avançada?
Abril 11, 2008 às 2:02 pm
ohermenauta
Rafael,
É extremamente impreciso dizer que os “europeus da mesma epoca nao estivessem tentando inventar praticamente a mesma coisa”, já que os tipos móveis de cerâmica e de madeira foram inventados na China em torno do ano 1000, e os e metal na Coréia ainda no séc. XIII. O problema dos orientais era outro: o fato de que seu alfabeto não era tão simples como o romano, o que tornava o sistema de tipos móveis extremamente dispendioso e complicado.
Abril 11, 2008 às 2:57 pm
LM
Rogerio,
concordo: parecer com o cristianismo nao e’ elogio; e’ ofensa. Meu ponto era mais modesto – que voce estava errado sobre o que Leibniz achava da filosofia chinesa.
Mas, sobre o ponto mais amplo do debate, eu nao disse que a China e’ mais avancada, especialmente porque eu nao sei o que “avancada” quer dizer. Voce quer dizer, por exemplo, que Kant superou Aristoteles? E que Nietzsche superou ambos? De tal modo que a historia e’ uma linha unica, e o que vem depois necessariamente supera o que veio antes?
Voce diria, por exemplo, que nao temos nada a aprender relendo Platao? E, se temos, por que nao teriamos, relendo Confucio?
Duas coisas me incomodam neste debate, em especial: essa atitude de determinar a priori que (e.g.) a filosofia chinesa nao tem nada a nos dizer, isto e’, sem ter lido nada sobre o assunto; e a insistencia em falar de classes (a cultura ocidental, a China), em vez de individuos.
Abril 11, 2008 às 7:46 pm
Rogério
Veja que eu não disse que não há nada a aprender com a China. Eu disse que tecnológica e moralmente a Civilização Ocidental sempre foi muito superior à China. Veja que a China só começou a progredir tecnológicamente depoid de uma Revolução baseada em uma ideologia ocidental-o Marxismo-, pois, antes disso, ao contrário do Japão, ela se se recusara a aprender as técnicas superiores do Ocidente. Não é minha culpa isso. A cultura chinesa só atraiu os intelectuais ocidentais na medida em que confirmava suas idéias- moral cristã, secularismo, etc. Isso não tem nada a ver com as qualidades específicas da cultura chinesa. Também não é minha culpa se a China não tinha nada a ensinar à Europa. Quanto à questão moral, se você quer ser o apologista das tiranias das dinastias chinesas e dos senhores da guerra – só aplacadas e muito pouco- pela vitória da Revolução é direito seu, mas não invejo o seu gosto. Por último, sim, existe um desenvolvimento linear na História, teses são provadas, erros, rejeitados, conclusões são tiradas; não fora assim e a História da Filosofia seria uma grande masturbação intelectual totalmente desvinculada da História. Isso não significa o triunfo do autor mais recente, mas significa que determinadas abordagens efetivamente resolvem os problemas que as inspiraram e outras, não. O modelo chinês pré-Mao é claramente inferior ao modelo ocidental, eis a verdade que os “relativistas” tentam desesperadamente esconder.
Abril 11, 2008 às 10:14 pm
LM
Rogério,
você continua errado.
“No nation challenged the Jesuits as much as China. When the Jesuits began arriving on its frontier in the late sixteenth century, they found a land still in its period of glory. By nearly any objective standard (population, wealth, size, learning), China was at the time the greatest nation in the world”. (p. 88)
“Leibniz did not see European culture as superior to Chinese culture. Upon comparing the intellectual and philosophical achievements of Europe and China, he found them both strong, but in different areas. [...] Whereas Europeans were strong in the more abstract subjects of logic, metaphysics, and mathematics, the Chinese excelled in ‘practical philosophy … that is, the precepts of ethics and politics’” (p. 90)
Retirei daqui, ó: http://books.google.com/books?id=BPlkkgIhUXIC&pg=PA87&dq=european+philosophical+responses+to+non-european+culture:+china&lr=&sig=Scfz66B5FmtcAcldVai6-SHz1v4#PPA90,M1
(O texto é curto, mas muito informativo; vale a pena ler.)
Finalmente, sua visão do progresso da filosofia é completamente desinformada. A metafísica, por exemplo, já foi morta e ressuscitada tantas vezes, que nem dá pra manter a conta. E, aliás, hoje em dia posições platônicas, aristotélicas, leibnizianas estão tão na mesa quanto outras de algumas escolas budistas, ou de filósofos chineses. O mesmo, aliás, poderia ser dito sobre ética: a teoria da virtude é uma das abordagens mais interessantes no debate atual, e existem alguns estudos bastante interesantes comparando, por exemplo, a posição aristotélica com as teses de Confúcio.
Antes eu havia reclamado que o que incomoda nestes debates é que pessoas sem conhecimento nenhum da cultura/filosofia chinesa emitem juízos sobre seu valor, completamente a priori. Mas acho que impressiona mais pessoas que nada sabem sobre a cultura ocidental estarem convencidas da sua superioridade…
Abril 12, 2008 às 12:07 am
Rogério
É triste ver a necessidade que os recalcados têm de atacar a Civilização.
1) A China realmente “desafiou” os jesuítas. Eles tentaram ensinar matemática, astronomia e tecnologia para os chineses, mas não conseguiram, pois os chineses se recusavam a aprender. A China inventou a pólvora? Em pleno século XVII, os chineses não tinham mais canhões. Compare com os japoneses que já aplicavam engenharia reversa nas armas lusitanas. O conhecimento dos chineses do mundo físico era muito inferior ao ocidental.
2) Repito: nunca nenhum autor ocidental levou a sério a filosofia sínica exceto como prova de suas teorias sociológicas (possibilidade de uma moralidade sem religião, etc.). Não só isso, mas a própria cultura chinesa era muito pouco conhecida na época e boa parte da mensagem foi distorcida. Basta ver-repito- que os opostos filosóficos da Europa viram na China uma justificativa para suas teorias opostas. Nem Leibiniz deixou seu esforço de unificar a Doutrina Cristã, nem Voltaire pensou em abndonar seu Racionalismo para seguir o misticismo confuciano. Talvez, você queira nos contar como a filosofia chinesa influenciou, digamos, Leibiniz ou os Enciclopedistas. Tanto quanto os índios influenciaram os conhecimentos de Cálculo e Engenharia do Marechal Rondon. Nem mais, nem menos.
3) A China era forte em Ética e Política? Por causa das matanças, do isolamento auto-imposto e da ignorância auto-infligida, da proibição de inovações (Confúcio condenou pessoas a morte por inovação e as dinastias proibiram o progresso científico). Você já ouviu falar de Rangaku? Pois é, nunca houve equivalente chinês. Por que será? O que você está dizendo é que os europeus tinham um grande conhecimento do Mundo real (Ciência) enquanto os chineses tinham do Mundo Imaginário (mitologia política, Mandato do Céu e outras bobagens similares).
4) Por último, evidentemente que a Filosofia-como qualquer outra forma de conhecimento- está sujeita a novas descobertas e formulações. Isso não muda o fato que, sim, certas formulações respondem melhor às questões que as inspiraram que outras- que o digam os místicos, os sofistas, os pitagóricos e outros derrubados pelo cavalo da História. O modelo ocidental era melhor que o modelo chinês (basta ver o que era a China pré-Mao). A técnica ocidental era superior à chinesa (basta ver que, graças a ela, os japoneses desandaram a massacrar seus antigos mestres). A moralidade ocidental era superior à barbárie chinesa que nem ao menos concebia o conceito de liberdade individual- às vésperas da Revolução Francesa.
5) Estranhamente, todas as suas objeções já foram derrubadas por vários autores, incluindo David Landes (principalmente os aspectos econômicos). Mas, claro, os recalcados precisam continuar derramando bile contra a Civilização.
Abril 12, 2008 às 2:22 am
LM
Rogério,
1) Por que é melhor ter canhões? É isso que conta como superioridade pra você? Por quê?
2) Insisto, você está errado: Leibniz, por exemplo, levou a sério a filosofia chinesa, e certamente foi mais influenciado por ela do que, por exemplo, por Clarke/Newton. (Aliás, as pessoas que mais fortemente se opuseram à filosofia chinesa, nesta época, viam nela uma espécie de espinosimo – o que, nos deixa, novamente, em chão ocidental…) Se você ler o texto que eu linkei, começará a ter dimensão das coisas. E se Leibniz não está bom pra você, há hoje vários bons filósofos estudando filosofia oriental. (Como eu disse, o trabalho comparativo de antigüidade grega e chinesa é particularmente interessante.)
3) Não fui eu quem disse que a China era mais avançada em ética e política; foi Leibniz. (Aliás, de onde você tirou que Leibniz queria unificar a doutrina cristã? E de onde você tirou suas informações sobre Confúcio?) Quisera eu saber o que é ser mais avançado em ética…
4) Sua visão sobre o progresso da filosofia continua ingênua. O problema da filosofia é que várias teorias respondem às questões – a disputa é justamente para saber qual responde melhor, e o que significa responder melhor. É relativamente fácil (ou pelo tornou-se, com o método científico) testar hipóteses científicas; mas como você testa teorias morais? Ou metafísicas? (Aliás, você está redondamente enganado ao citar os sofistas como carta fora do baralho; há trabalhos de reabilitação do pensamento deles muito interessantes.) Não estou aqui defendendo um relativismo epistemológico; só estou dizendo que descobrir a verdade é bem mais difícil do que você faz crer. (Seria muito conveniente se a gente pudesse descobrir verdades simplesmente olhando a nacionalidade e a época de quem as enunciou; talvez isso sirva pra você, mas certamente não pra mim.)
5) Não sei quais foram “todas minhas objeções”, nem como elas foram derrubadas pelo Landes. Que eu saiba, o livro dele fala do sucesso econômico dos países; mas que eu saiba, desenvolvimento econômico e superioridade civilizatória não são sinônimos (ou você diria que as pessoas mais ricas são superiores? Moralmente, inclusive?). De todo modo, você deve saber que o livro do Landes tem problemas, especialmente no que tange à China; a resenha do William McNeil, para o The New York Review of Books, aponta alguns.
Finalmente, não sei se sou recalcado; mas sei que não estou derramando bile nenhuma contra a “Civilização” – porque, na verdade, eu não faço a mínima idéia do que você chama por tão pomposo nome. Isso inclui o que, exatamente? Qual é todo esse progresso de que você se orgulha tanto? É das vídeo-cassetadas do Faustão? É da bomba atômica? É dos bilhões de dólares que você tem no banco?
Ou, perguntando de outro modo, por que você acha que você pode colocar os sucessos de, sei lá, Shakespeare na sua conta (ou na conta do ocidente)? E por que isso te impede de olhar pro lado e admirar, sei lá, Li Po? Em outras palavras, eu acho que, com essa competição, quem perde é você.
Abril 12, 2008 às 9:01 am
Rogério
1) Sim, acho que a capacidade técnica de construir canhões é uma prova de superioridade. Talvez não seja para aqueles que idolatram a ignorância.,
2) Ainda estou esperando para saber como Leibiniz foi influenciado. Por que será que ele continuou cristâo se o misticismo confunciano era tão maravilhoso?
3) Ainda espero para saber como a Ética e a Política chinesas baseada na opressão servil, na liquidação dos dissidentes e na oposição ao progresso eram boas. A “ética” chinesa influenciou Leibiniz? Como? Entre os autores que trataram das tentativas de Leibiniz de devolver a unidade ao Cristianismo está Drucker, quando trata da ascensão de ideologias “religiões seculares” como o Nazismo e o Fascismo. O fato de que Confúcio era contra o progresso científico está na biografia dele e, aliás, o fato da China ter tido que esperar uma revolução anti-confuciana para começar a se desenvolver é prova mais que suficiente. Veja que mesmo Needham com todo seu respeito ao passado científico chinês atribui ao Confucionismo boa parte da culpa pela inferioridade técnica chinesa.
4) Se você não pode testar “teorias morais”, então também não deve criá-las, já que não saberá se a teoria é útil ou não. Para sorte da Humanidade, ao contrário de você, a maior parte das pessoas no Ocidente aceita a idéia que servidão e combate ao progresso científico são coisas más (por isso, aliás, o Ocidente não se estagnou como a China pré-Mao).
5) Landes fala também da superioridade intelectual (uso de material impresso, método científico, curiosidade científica e flexibilidade) que permitiu aos europeus (e, depois, aos japoneses) o triunfo sobre a China. Novamente, onde está o Rangaku chinês? Não houve. Por último, repare que eu não digo que não há nada a aprender com a China ou que qualquer ocidental tomado ao acaso é superior a qualquer chinês tomado ao acaso. Eu disse que os valores morais da Civilização são superiores aos valores morais adotados pelos líderes chineses, que o conhecimento técnico europeu sempre foi superior ao conhecimento técnico chinês e que a governança européia sempre foi superior à chinesa. Nada me impede de admirar os grandes chineses (Mao, por exemplo), provavelmente, porque, ao contrário de você, para admirar os pouquíssimos grandes chineses, eu não preciso tentar diminuir a Civilização.
Abril 12, 2008 às 11:39 am
LM
1) Do fato de alguém não construir canhões não se infere que ele não tem a capacidade técnica; outros motivos podem intereferir. Por exemplo, a pessoa pode não achar uma boa idéia. De qualquer modo, o progresso tecnológico – especialmente o progresso tecnológico desenfreado – causou vários problemas ecológicos, com os quais estamos apenas começando a lidar. E, de mais a mais, tenho certeza de que construir a bomba atômica envolveu bastante capacidade técnica – mas eu preferia que ela não tivesse sido construída.
2) Como eu disse, Leibniz não foi influenciado pela metafísica chinesa; além do mais, não faço a menor idéia do que você está chamando de misticismo confuciano: você tem certeza de que leu os Analectos? Mas, continue esperando: talvez você aprenda mais sobre sua cultura por osmose. Parece que a única coisa que você sabe dela você adquiriu assim.
3) De qual biografia de Confúcio você está falando? Confúcio é dessas figuras mitizadas, como Sócrates ou Pitágoras. Não podemos saber, ao certo, o que é fato e o que é ficção nos relatos de sua vida.
4) Diga-me, então, você – como se propõe a resolver qual teoria ética é melhor? Que teste deveríamos fazer para saber se devemos preferir o utilitarismo de Mill, ou o imperativo categórico kantiano? Se houvesse um teste simples para decidir, sei lá, se o aborto é imoral ou não, não haveria tanto debate.
5) Quando você fala em Civilização, você está falando daquele jogo de computador, né?
Abril 12, 2008 às 1:58 pm
Rogério
Até que ponto os recalcados chegam. Defender a tirania dos senhores da guerra e das disnastias.
1) Continua o culto à ignorância. Os chineses não sabiam construir canhões porque lhes faltava o conhecimento para isso. Oh, mas vai ver que era porque os tiranos imperialistas chineses eram pacifistas.
2) Ah, bom. Leibiniz achava a filosofia chinesa avancadíssima, só não via nada a aprender com ela. Vivendo e aprendendo.
3) “De qual biografia de Confúcio você está falando? Confúcio é dessas figuras mitizadas, como Sócrates ou Pitágoras.” É, mas justiça seja feita aos chineses, eles têm bom registros. Confúcio, quando Ministro da Justiça, oprimiu os súditos. Embora eu tenha que lembrar que eu estou mais preocupado com o confucionismo do que com Confúcio. É fato que o confucionismo impediu o progresso e oprimiu o Povo. Mas, claro, você finge não saber disso.
4) ” Se houvesse um teste simples para decidir, sei lá, se o aborto é imoral ou não, não haveria tanto debate.”
Por essa lógica retardada- típica dos relativistas- não dá para saber se exterminar os judeus é bom ou mal, pois nos tempos de Hitler o pessoal não deu muita bola para o assunto. E quanto à escravidão? Houve muito debate. Você não tem certeza se ela é boa ou nâo? Dá para entender agora o porquê de você defender a tirania dos senhores da guerra chineses. Veja que eu citei os pitagóricos e sofistas porque muitas de suas doutrinas- especialmente aquelas que, hoje caem nos domínios das Ciências- foram provadas falsas. Você acha que o Mandato dos Céus é verdadeiro? Você acredita nas superstições do Taoísmo? Você aceita o fascismo confucionista (o Partido Comunismo Chinês provou que o Confucionismo é a doutrina dos senhores de escravos e exploradores do Povo)?
5) Ah, você não sabe o que é Civilização. Por isso você defende a barbárie das dinastias chinesas. Você não conhece nada melhor. Pobrezinho.
Abril 12, 2008 às 3:37 pm
LM
Rogério,
1) Você perdeu completamente o ponto. A questão é saber se a superioridade tecnólogica e o avanço científico *a qualquer preço* refletem mesmo uma superioridade, vá lá, moral. Quando você me diz que o ocidente é superior por causa da sua superioridade bélica, fico com a impressão de que é só isso que te importa. (Aliás, você parece se fiar nesta idéia ingênua de que o progresso científico vai nos trazer felicidade. Falando em dogmas…)
2) Mais uma vez, Leibniz admirava os chineses. Você pode negar isso o quanto quiser, mas não vai mudar o fato. (Quem é relativista, afinal?)
3) O problema de toda sua defesa é você usa dois pesos e duas medidas. O cristianismo também promoveu várias barbáries e também atranvacou o progresso da ciência (e tenta atravancar, pra bem ou pra mal, ainda hoje).
4) Bom, o ônus é seu, então. Diga-nos, de uma vez por todas, como você propõe a resolver querelas éticas. Até agora, pelo que você falou, você só confia nos suas próprias intuições. (Digamos assim: eu concordo com você que a escravidão é ruim, mas como você pode provar que isso não é só nossa opinião? Como garantir que isso expressa uma verdade? Não vale, é claro, apelar a misticismos religiosos…)
5) Eu certamente não sei o que é Civilização; e se seu comportamento aqui é representativo, acho que não quero fazer parte do seu clube, não.
Abril 12, 2008 às 7:57 pm
João Paulo Rodrigues
Não sei se faço parte desse clube civilizado ou não. Mas os ansiosos por escrever “Civilização” deveriam comprar o pacote completo e explicar, sem relativismos, se devemos agradecer também pela escravidão transatlântica, pelos servos das glebas russas, pelo militarismo dos junkers, pela guilhotina e sua reação, não menos sangrenta, pelo colonialismo do século XIX, pelo trabalho infantil industrial, pelo anti-semitismo, pela colonização do Congo, pela invenção do Campo de concentração (copyright Império de Sua Magestade), pela moderna limpeza étnica (copyright Andrew Jackson), pelos campos de extermínio (copyright III Reich) pelos regimes socialistas and so on.
Sim, relativizar pode ser bom. Se uma das principais coisas que faz de um indivíduo um adulto é a capacidade de duvidar de si, de questionar-se, examinar seu passado, e mesmo ser capaz do exercício da auto-ironia, creio que uma sociedade decente se faz com os mesmos atributos. Entre os que não relativizaram estavam os que afirmavam a superioridade moral da Europa, do mundo cristão ou do Ocidente enquanto escravos erigiam sua riqueza, ou enquanto os nativos que eram por si governados recebiam chicote, tortura e a morte em grande escala. Ou um lugar em exposições e experimentos sobre as razões de sua inferioridade.
O exemplo da China é bom. Não negaria o atraso técnico, científico e espiritual (no sentido de abertura para o contato com o mundo exterior, que se deveu a uma certeza de sua própria superioridade intrínseca e a ausência de pensamento crítico) numa época em que a Europa dava saltos enormes (embora desiguais, como foi o caso dos nossos patrícios, que também não eram muito chegados numa ciência de ponta). Mas será que confucionismo é destino? Ou será que a guerra do ópio, a conquista de várias cidades ou portos pelas potências européias na segunda metade do XIX, as invasões ocidentais em 95 e 35 (afinal, o Japão era, para todos os efeitos, uma potência imperialista, com o que de mais moderno havia de técnica a seu dispor), com sua trilha de centenas de milhares de mortos não jogam um papel importante no atraso chinês? Isso para não falar no desastre do maoísmo, um derivado ideológico do que de melhor o ocidente parecia oferecer ao mundo após 1917 – a libertação pelo socialismo.
Se eu fosse indicar um livro a alguém interessado em como a Civilização pode ter uma face horrenda (que ultrapassa em muito a tirania de mandarins e outros pontentados), mesmo descontando os possíveis exageros do autor, indicaria “Holocaustos coloniais”, de Mike Davis (Cia. das Letras). Ao menos obriga quem objetar suas conclusões sobre o efeito de holocausto no processo que levou a civilização ao oriente (incluindo o relativismo moral de seus agentes, que achavam seus novos súditos menos humanos que, ora ora, os ocientais) a elevar-se à erudição e a buscar exemplos concretos para ultrapassar abstrações tão cômodas quanto vagas.
Não sou dos que acham que então o melhor era voltar no tempo para evitar tais horrores. Não igualo civilização a barbárie. Mas que o ocidente foi capaz dos maiores horrores até então imaginados por qualquer cultura, isso é inegável. Nem desconheço que a Europa e a América não testemunharam muitas conquistas. Mas elas “testemunharam”, pois boa parte delas foi obra de forças que os pretores da Civilização viam com desdém ou horror, preferindo um mundo que, se essas outras forças não tivessem agido, seria bem, mas bem menos civilizada do que hoje me parece ser esse nosso mundinho de Deus. E encher a boca e bater no peito sobre nossa própria civilização apaga tudo acima. Faz parte da história dessa Civilização, queiram os seus fiéis ou não.
Abril 14, 2008 às 12:57 pm
Rafael Figueira
Essa discussao nunca vai acabar enquanto aparecerem torpes achando q ser superior signfica ser perfeita. No dia em q relativistas sairem dessa cratera em q o maniqueismo os enterra, talvez o debate avance. Ate’ la’ vao continuar enumerando erros do passado como se fossem argumentos.
Abril 14, 2008 às 8:21 pm
Anna
… é tão fácil desqualificar a argumentação alheia, criar uma categoria de relativistas e associá-la ao maniqueísmo. O que os “relativistas” talvez queiram dizer que qualquer pretensa “superioridade”realmente não implica perfeição e simetria, mas pontos favoráveis e desfavoráveis como qualquer cultura e civilização existente já produziu.
“Superioridade” é discurso perigoso, que já nos rendeu um ou dois genocídios. Se quiser atestar o que sua cultura tem de bom [as grandes realizações da ciência moderna e etc, etc] faça-o, é saudável. Agora dizer que a ontologia e os modos de vida alheios são “inferiores” continua sendo coisa de gente torpe.
Não existe um ser racional universal calcado nos mesmos princípios. Enquanto a humanidade acreditar nisso, a demência do absolutismo [e veja que não estou falando de política] pode continuar reinando.
E viva os olavetes.
Abril 14, 2008 às 8:21 pm
Anna
Viu como é fácil? Apelou? Perdeu!