Hoje recebi um powerpoint bem safadinho, a começar pelo título: “Escandalosamente Lindo“. É de autoria anônima, e bem extenso, mas selecionei 3 slides para ilustrar o clima.
A imagem de fundo é pungente: uma velhinha triste, olhando através de uma janela, as mãos espalmadas sobre o vidro _ ela está presa dentro de casa, obviamente o último refúgio contra um mundo ameaçador.
A sessão de slides começa mostrando como as coisas eram antigamente _ bandido era bandido, polícia era polícia, bandido respeitava polícia, jovens respeitavam os mais velhos, etc _ e em seguida estabelecendo uma comparação com os dias atuais (violência gratuita, roubo, estupro, corrupção). No Country for Old Men.
Em seguida, uma série de frases vão aparecendo, em um crescendo de indignação. Os temas são os clássicos da nossa boa gente conservadora: queremos liberdade, sim, mas com segurança, ora. O que significa que queremos liberdade para alguns e cadeia, obviamente, para aqueles que sabe-se lá porque resolveram ameaçar a segurança dos outros:

Em alguns momentos, o discurso assume tons generosos, gente boa: “teto para todos, comida na mesa, saúde a mil!“. “Saúde a mil“, aliás, até rimaria com “Brasil varonil“, mas o autor do slide não chega a tanto.
Aí aparece uma frase reveladora: “Quero calar a boca de quem diz: “a nível de”, enquanto pessoa“. Evidentemente, quero afastar de mim aquele pessoal chato, que vem com aquele discurso complicado, de que não é bem assim. Sabem, né, esse povo dos “direitos humanos” para marginais! Não, não, eu quero é a “verdadeira vida“, aquela vida que merecem as pessoas “definitivamente comuns, como eu“.
Como sabem, o “definitivamente comum” é o óbvio: insegurança? Cadeia. Imoralidade? Religião. Doença sexualmente transmissível? Castidade, ué.
Eu já falei nesse tipo de argumento aqui no blog: trata-se de exercer a profecia do óbvio. Um discurso sedutor para uma burguesia cuja má-consciência prefere, obviamente, botar a culpa em um outro, um inimigo, um feio, sujo e mendicante (o pedinte, o assaltante), ou um engravatado feio, sujo e arrogante ( o político, o intelectual militante), do que encarar o difícil trabalho de fazer a engenharia reversa de sua própria existência e descobrir como o que lhe é natural, sua vida “simples como uma gota de chuva“, é também capaz de engendrar todos os problemas que as ruas lhe propõem. O discurso, enfim, ideal para quem cansou. De pensar.
É a face cívica do fascismo.


12 comments
Comments feed for this article
Abril 2, 2008 às 8:14 pm
F. Arranhaponte
“Abaixo o ter, viva o ser” é foda. Por que estas coisas têm de ser tão cafonas?
Abril 2, 2008 às 8:33 pm
Pangloss
Não duvido que o autor do post já tenha falsificado carteira de estudante para pagar meia entrada. Sei lá, um chute.
Abril 2, 2008 às 8:38 pm
ohermenauta
Errou. Mas a velhinha da foto…sei não.
Abril 2, 2008 às 9:10 pm
Blog dos Perrusi » Blog Archive » A face cívica do fascismo
[...] muito bom, muito bom mesmo do Hermenauta. Tão bom que nem comentarei — pra quê, se concordo ipsi litteris com o que foi [...]
Abril 2, 2008 às 10:39 pm
samurai no outono
Gente, a velhinha é uma ícone do conservadorismo brasileiro.
Olhem a fisionomia: é o Lacerda, disfarçado.
Abril 2, 2008 às 11:23 pm
André
Você deveria era processar a figura que lhe mandou este e-mail, Hermê. Brincadeira essa galera que acha que hoje em dia as coisas estão no fundo do poço e que anos atrás é que a vida era boa…
Abraços,
Abril 3, 2008 às 10:18 am
Catatau
“…do que encarar o difícil trabalho de fazer a engenharia reversa de sua própria existência e descobrir como o que lhe é natural, sua vida “simples como uma gota de chuva“, é também capaz de engendrar todos os problemas que as ruas lhe propõem.”
Perfeito.
Abril 3, 2008 às 10:25 am
João Paulo Rodrigues
“Um discurso sedutor para uma burguesia cuja má-consciência prefere, obviamente, botar a culpa em um outro, um inimigo, um feio, sujo e mendicante (o pedinte, o assaltante), ou um engravatado feio, sujo e arrogante ( o político, o intelectual militante), do que encarar o difícil trabalho de fazer a engenharia reversa de sua própria existência e descobrir como o que lhe é natural, sua vida “simples como uma gota de chuva“, é também capaz de engendrar todos os problemas que as ruas lhe propõem.”
Alguém pode me explicar o que isso quer dizer? “Engenharia reversa”? Os problemas que as ruas me propõe, geralmente, são virar à direita, à esquerda, se estou em mão dupla, coisas assim.
Abril 3, 2008 às 10:41 am
ohermenauta
JPR,
O Google, o pai dos burros da era moderna, existe é pra isso mesmo, camarada.
Abril 3, 2008 às 1:56 pm
João Paulo Rodrigues
Mas, camarada companheiro, ou companheiro camarada?
“A Engenharia reversa consiste em usar a criatividade para, a partir de uma solução pronta, retirar todos os possíveis conceitos novos ali empregados.”
“Objetivamente a Engenharia Reversa consiste em, por exemplo, desmontar uma máquina para descobrir como ela funciona.”
Há, há há. Banalidade em estado de absíntico (quase puro). Passamos da fase do estruturalismo, para o pós-estruturalismo, depois veios o multi-culturalismo e chegamos ao softwerismo (de resultados?).
Quando o Google vira horizonte de pensamento, sei não…
Abril 3, 2008 às 3:33 pm
ohermenauta
Tu me entendeste mal, companheiro JPR.
Não é que o Google seja horizonte do pensamento. Ele é apenas o “ground zero” da ignorância.
Esta frase diz tudo que você precisa saber sobre a acepção em que utilizei a expressão:
“Objetivamente a Engenharia Reversa consiste em, por exemplo, desmontar uma máquina para descobrir como ela funciona.”
Cá entre nós, dá para entender agora, vá. É claro que você sempre pode criticar minhas opções estilísticas, mas do ponto de vista do objetivo da construção, a coisa me parece tão evidente que carece de ulteriores explicações.
Abril 5, 2008 às 11:37 pm
Ollie McGee
Aposto que essa velhinha olhando pela janela está observando o seu jardim e pensando: “Merda, aquela #@$@#* daquela gata do vizinho cagou de novo no meu canteiro de morangos. Ainda boto veneno na ração dequela peste…”