
Stargating?
No NYT de hoje uma briga boa entre dois sujeitos preocupados (”concerned citizens”…) e o CERN, o instituto de pesquisa em altas energias da União Européia, que ainda no verão deste ano (no hemisfério norte) pretende inaugurar o mais novo empreendimento científico na área _ o Grande Colisor de Hádrons, em Genebra, França.
Walter L. Wagner, residente no Havaí, e Luis Sancho, residente em Barcelona, buscam impedir, na corte do Havaí (??), que o CERN ponha o acelerador para funcionar. O motivo? A possibilidade de que o acelerador crie a) um pequeno buraco negro que engula o planeta inteiro ou b) um “strangelet”, um pedaço de matéria quântica capaz de transformar todo o resto do planeta em “matéria estranha”. As duas possibilidades não são exatamente compatíveis com a vida, razão pela qual os dois cidadãos advogam que o “princípio precaucionário” embutido na legislação da Comissão Européia (falo brevemente sobre o Princípio neste post).
Evidentemente a corte do Havaí não tem jurisdição sobre a Comissão Européia e suas instituições, mas tem sobre o Departamento de Energia norte-americano, entre outras instituições dos EUA, que contribuem para o experimento.
Por via das dúvidas, embora o CERN já tenha produzido um relatório analisando os riscos em 2003, montou-se um novo grupo para rever todas as possibilidades envolvidas.
Cientistas apontam que nada irá acontecer no colisor de diferente do que já acontece milhões de vezes na própria atmosfera terrestre, já que raios cósmicos de alta energia vez por outra colidem com átomos na atmosfera terrestre criando choques da mesma ordem de grandeza (ou maior) em termos de energia do que as que ocorrerão no acelerador. A diferença, porém, é que enquanto os resíduos dos choques envolvendo raios cósmicos continuam voando universo afora à velocidades próximas às da luz, o LHC só consegue atingir energias próximas àquelas fazendo prótons colidirem em choque frontal. Nesse tipo de choque, o resultado do experimento muito provavelmente ficará em repouso em relação ao colisor _ e a tudo o que o cerca, nós inclusive.
Embora eu tenha confiança no julgamento da maioria da comunidade científica _ que acha que o experimento é totalmente seguro _ não consigo deixar de pensar na discussão sobre o Paradoxo de Fermi. Em todo caso vou ver se aproveito bem os próximos meses…


8 comments
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Março 29, 2008 às 3:40 pm
caliban
Sabe o que é mais engraçado nessa história? Previsões como essas, de mini-buracos negros e strangelets, são todas baseadas em teorias “além do modelo padrão”, que é o modelo aceito e fartamente verificado experimentalmente para fenômenos em escalas de energia que já acessamos. Claro, essa é justamente a seara do LHC, que quer justamente ir “além do modelo padrão”, embora, by the way, não haja nenhuma garantia de que isso vá acontecer.
Por isso, essas teorias têm enorme grau de especulação e criatividade, apesar de sérias (não são loucuras anti-científicas), algumas mais outras menos especulativas. Para ser mais claro, são grandes viagens na maionese, e é isso que na verdade é o grande prazer dos físicos teóricos que as formulam, deixar a criatividade rolar solta na esperança de “hit the jackpot”. Ou seja, tudo “fair game” dentro do contexto científico.
O “downside” é que esses mesmos cientistas, humanos que são, estão sempre doidos para que suas teorias sejam notícia fora do contexto científico, além do fato de que parte da justificativa para a construção do LHC baseia-se justamente em “vender” ao contribuinte que paga a conta a possibilidade de se detectar essas coisas exóticas. Só que numa hora como essa, a propaganda exagerada mostra-se perigosa e contra-produtiva.
Pode chamar de o “paradoxo de caliban”….
Março 29, 2008 às 8:26 pm
Letra Morta
Tem uma boa discussão sobre o paradoxo de Fermi em http://en.wikipedia.org/wiki/Fermi_paradox#They_do_exist.2C_but_we_see_no_evidence
Um dos pontos que mais me chamou a atenção foi este:
“The greatest problem is the sheer size of the radio search needed to look for signals, the limited amount of resources committed to SETI, and the sensitivity of modern instruments. SETI estimates, for instance, that with a radio telescope as sensitive as the Arecibo Observatory, Earth’s television and radio broadcasts would only be detectable at distances up to 0.3 light years. Clearly detecting an Earth type civilization at great distances is difficult”.
Ou seja, mesmo que houvesse uma civilização com transmissões de rádio semelhantes às nossas em Proxima Centauri, a “apenas” 4,2 anos-luz de distância, dificilmente seríamos capazes de captar ou entender seus sinais. Se eu tivesse que apostar em um motivo para a falta de sinais, seria este.
Março 29, 2008 às 8:45 pm
Eduardo
Caro Hermeneuta, gostaria de fazer uma pequena correção. a cidade de Genebra, está situada na Suíça, no cantão helvético do mesmo nome, junto a fronteira com a França. Abs, Eduardo
Março 30, 2008 às 7:19 am
ohermenauta
Caliban,
That’s it, man.
Letra,
O pessoal do SETI sabe disso, razão pela qual não é isso que estão procurando. Veja este trecho de uma entrevista:
” Can you give some idea, in layman’s terms, what kind of signals you could possibly detect, for example, how close would ET civilisations have to be in order for us to detect signals like TV transmissions?
Jill Tarter:
Too close. We don’t put much power into our TV or radio transmissions because their intended audience is not very far away. Our defense radars are much stronger and the current Phoenix search could detect that kind of signal out to the limit of our current search which is 155 light years. The strongest signal generated by our technology is the planetary radar on the Arecibo radio telescope and we could detect its signal half way to the center of the galaxy. The types of signals we look for are those that have their power concentrated into a very narrow band of frequencies - more compressed in frequency than anything that nature is capable of doing. We take this monochromatic (single frequency) signature as being evidence of technology.
Ian Morison:
Powerfull TV transmitters are probably a very short term requirement of a civilisation - already here they are being replace by Cable Transmission and relativly low power signals beamed down to Earth from satellites. Other civilisations, most likely far more advanced as ours, would almost certainly not “leak” radio signals as we do. But if they chose to set up a beacon as strong as the Planetary Radar at Arecibo in Puerto Rica pointed towards us we could detect it from a distance of tens of thousands of light years - but remember that the further away they are the longer ago they would have had to send the signal. ”
Eduardo,
Obrigado pela correção. Na verdade eu havia escrito primeiro “Grenoble”, depois vi que era Genebra mas esqueci de corrigir o resto…
Março 30, 2008 às 6:21 pm
Emerson
O Asimov escreveu um livro sobre isso, que inclusive foi traduzido para o português com o título de “Escolha sua catástrofe”.
A probabilidade dos diferentes tipos de desastres que pode ocorrer em um acelerador relativístico estão analisadas em
“Review of Speculative “Disaster Scenarios” at RHIC” (http://www.bnl.gov/rhic/disaster.htm) e “How Unlikely is a Doomsday Catastrophe?” (http://arxiv.org/abs/astro-ph/0512204). Resumindo podem ocorrer três coisas: criação de um buraco negro que consumiria o planeta, transição para um meta-universo mais estável e formação de um “matéria estranha” que provocaria a mudança da matéria para uma nova forma. O segundo artigo conclui que há anualmente pelo menos mil vezes mais chance que algo desse tipo ocorra devido a causas naturais (como os raios cósmicos) que no acelerador do CERN. Com relação ao “strengelets”, no primeiro artigo afirma-se que eles são frios, densos e com energia de ligação (se houver) da ordem de dezenas de MeV. O choque entre íons é dito quente e se algum equilíbrio térmico for atingido será do ordem de no mínimo algumas centenas de MeV. Assim, esperar o surgimento de strengelets estáveis em choque de íons é como esperar surgimento de gelo em uma fornalha (viola 2° Lei Termodinâmica).
Pior que a expectativa sobre a pequena chance que algo possa sair errado, são outros estudos e/ou grupos que deliberadamente planejam o holocausto mundial. No “Scientists cheer holocaust wish” ,(http://www.worldnetdaily.com/index.php?fa=PAGE.view&pageId=35532), por exemplo, o prof. Eric R. Pianka defende o extermínio de 90 % da humanidade através do uso do ebola-reston. Em uma apresentação na Univ. do Texas onde ele reproduziu os quatro cavaleiros negros do apocalipse comparou-se os diferentes meios (AIDS etc…) para atingir essa meta. No fim apontou esse vírus como meio de solução porque contrariamente ao ébola normal, que precisa do sangue como meio de transmissão, ele pode ser transmitido pelo ar e mata rapidamente em questão de dias. O único porém é que o vírus afeta apenas macacos. O cientista espera que com o tempo a evolução dê origem a um vírus aéreo fatal para os humanos. Ao terminar sua palestra na Universidade do Texas o cara foi ovacionado por 400 pessoas.
Março 30, 2008 às 8:38 pm
caliban
Caro Emerson,
O problemas dessas análises é que elas assumem que o fenômeno segue certas teorias especulativas (no caso de mini-buracos negros, é preciso que o universo tenha 10 ou 11 dimensões…) e aí são calculadas as probabilidades de desastre, que eles dizem serem pequenas. Mas no cálculo não está incluída a probabilidade da própria teoria estar certa, pelo simples motivo de que não se pode calcular tal coisa. Essa última eu acho que é muito menor do que a imaginação popular crê.
Março 30, 2008 às 9:03 pm
Thomas
Não sei quanto a vocês, mas estou curioso para saber em que tipo de “matéria-estranha” eu me transformaria…
Março 31, 2008 às 12:27 am
ratapulgo estranho
Exato.
Sempre que uma civilização tecnológica, no início da exploração espacial, constrói o bendito acelerador de partículas capaz de produzir buracos negros (todas elas constroem, é batata) ela acaba por engolir-se a si mesma.
Resolvido o paradoxo da comunicabilidade.