
O NYT nos informa que um grupo de “áudio-historiadores”(!) trabalhando em Paris descobriu o que possivelmente seja o mais antigo registro gravado de voz existente _ uma cantora cantando um trecho de “Au Clair de Lune“. Clique aqui para ouvir.
O trecho foi gravado em um Fonoautógrafo, um aparelho criado em 1857 pelo parisiense Édouard-Léon Scott de Martinville e que era capaz de gravar sons mas não de tocá-los. A idéia era apenas a de estudar visualmente o comportamento das ondas sonoras _ só mais tarde ocorreu a alguém a idéia de reverter o processo e recriar o som gravado.
Scott de Martinville morreu convencido de ter sido “roubado” em sua glória pela atribuição popular do invento do som gravado a Thomas Edison. Entretanto, a gravação do Clair de Lune, de 1860, predata em 17 anos o registro da patente do por Edison. Denotando notável falta de empreendedorismo (era homem de letras, autor de um livro sobre estenografia), Scott atacou Edison por ter usurpado a tecnologia para um uso diverso daquele para o qual a técnica havia sido inventada: gravar a fala, e não reproduzir sons. Ah, a França.
Como curiosidade adicional, David Giovannoni, Patrick Feaster, Richard Martin and Meagan Hennessey, pesquisadores que desenterraram a gravação, são também os proprietários da Archeophone Records, gravadora especializada em sons antigos (ou como diz seu slogan, “músicas que você pensava perdidas para sempre”). Diz o NYT:
“They had collaborated on the Archeophone album “Actionable Offenses,” a collection of obscene 19th-century records that received two Grammy nominations.“
Pois é. Tem na Amazon.
Anotem aí, eu serei um defunto muito triste, pois viver é divertido demais.
***
Algo realmente notável na notícia é o fato de que se conseguiu, afinal, reproduzir um som gravado sem que o objetivo tenha sido o de reproduzí-lo algum dia _ na verdade, antes que um reprodutor tivesse sido inventado.
Por afinidade, mas não por causalidade, isso me lembrou de um conto de ficção científica (de cujo autor já não me lembro _ Sprague de Camp? Asimov? Alzheimer?) em que um cara conseguia construir uma máquina capaz de reproduzir qualquer som já existente sobre a Terra. A idéia é a de que o som nunca se extinguia verdadeiramente, apenas se atenuava, e que portanto um amplificador suficientemente potente conseguiria reproduzi-los. Hoje se sabe que os sons obviamente terminam sofrendo morte térmica, atenuando-se até virar mera vibração de átomos e energia mecânica dissipada como movimento de moléculas, isto é, calor.
Em outras palavras, tudo o que você disser será usado para aquecê-lo (e aumentar a entropia do universo).


9 comments
Comments feed for this article
Março 27, 2008 às 4:14 pm
Nelson Moraes
A França tem a literatura e alguma (muito pouca) filosofia. Mas de resto, pfui.
Março 27, 2008 às 4:24 pm
Nelson Moraes
Certo, certo, tem os vinhos e a culinária. Vou parar por aqui senão acabo restando meu caso.
Março 27, 2008 às 4:31 pm
ohermenauta
E as mulé? E os queijos? E o presidente casado com uma gostosa? E a force de frappe?
E, above all, Catherine Fabienne Dorléac, que não é uma mulher, é um capítulo à parte?
Março 27, 2008 às 4:33 pm
marcos
De conto de ficção científica eu não sei… mas que teve um
a história na revista do Tio Patinhas com esse mesmo mote, isso eu lembro
Março 27, 2008 às 6:14 pm
Thomas
“Hoje se sabe que os sons obviamente terminam sofrendo morte térmica, atenuando-se até virar mera vibração de átomos e energia mecânica dissipada como movimento de moléculas, isto é, calor.”
Aposto que aí tem algo.
“Descoberta a verdadeira causa do aquecimento global…”
Março 27, 2008 às 6:27 pm
ohermenauta
Olha, Thomas…eu até conheço umas pessoas que podem estar realmente contribuindo para o aquecimento global por essa via.
Março 27, 2008 às 8:01 pm
Nelson Moraes
Mas os queijos e as mulé… ça vas sans dire, mon cher!
Março 28, 2008 às 3:09 pm
Márcia W.
Efeito colateral da notícia numa apresentadora da BBC
http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2008/03/080328_apresentadorarisada_ba.shtml
Abelha numa lata
O ataque de risos começou depois que alguém da equipe do estúdio disse que a gravação da mulher cantando, que tinha acabado de ser tocada, parecia “o zumbido de uma abelha dentro de uma garrafa”.
Junho 17, 2008 às 3:07 pm
A Web que o mundo esqueceu «
[...] fato é que um outro visionário francófono (outro, sim, pois há, ou havia, muitos deles), Paul Otlet, um belga, já havia antecipado, em 1934, a World Wide Web. Não causa muita surpresa [...]