Da entrevista com Gay Telese, na Folha de hoje:
“FOLHA – Os eleitores levam em conta o comportamento sexual do candidato?
TALESE – Não acho que faz diferença nenhuma desde que não se relacione com seu trabalho. John Kennedy foi um presidente muito bom e tinha amantes. Bob Kennedy, seu irmão, tinha amantes. Eram casados e tinham amantes. Lyndon Johnson tinha amantes. Eisenhower. Todos nossos bons presidentes tinham amantes. O presidente Richard Nixon não tinha amantes e foi um presidente ruim. Esse cara, George W. Bush, é um presidente ruim. E não tem amantes. Entende? Bill Clinton foi muito bom e teve. Os piores presidentes são os que não tiveram amantes. Nixon foi o pior de todos os tempos. E Bush é o segundo pior. Se Bush tivesse amantes, talvez não estaria matando tanta gente no Iraque e tendo essa politica de destruir a vida de tanta gente.“
Como fica o Brasil, por este critério? FHC teve um filho ilegítimo, com uma repórter que a Globo fez o favor de levar para bem longe durante seu reinado. O Eneadáctilo não tem amantes, ao que se saiba, mas no PT do Rio todo mundo sabe que ele comparecia às festas do Partido nos anos 80 e faturava qualquer militante que desse mole.
Transcrevo abaixo do fold, para os sem-UOL.
ENTREVISTA da 2ª/GAY TALESE
Nos EUA, os piores presidentes não tiveram amantes Autor de “A Mulher do Próximo” diz que americano não está mais moralista e que falar de sexo simplifica a política
Paul Hawthorne – 12.jan.05/Getty Images![]() |
O escritor e jornalista americano Gay Talese, que escreveu livro-reportagem sobre sexo nos EUA |
DANIEL BERGAMASCO
DE NOVA YORK
GAY TALESE está resfriado. Telefona para o repórter da Folha, atendendo ao pedido deixado na secretária eletrônica, e avisa, raspando a garganta: “Me resfriei e vou viajar, não posso receber você em casa. Mas posso falar agora sobre o Spitzer, tenho poucos minutos”, diz o escritor de 76 anos, um dos pais do jornalismo literário, autor de reportagens antológicas reunidas nas coletâneas “Aos Olhos da Multidão” e “Fama e Anonimato” e de obras como “O Reino e o Poder”, sobre o “The New York Times”, onde atuou como repórter.

Talese diz que a sociedade americana não está mais ou menos moralista desde que ele publicou em 1980 “A Mulher do Próximo”, livro-reportagem que retrata a transformação sexual e moral dos Estados Unidos entre as décadas de 1960 e 1970. Contudo, diz, a mídia repete tanto as informações sobre escândalos sexuais que faz que as pessoas se importem com eles, como no caso do ex-governador de Nova York Eliot Spitzer, que, casado, renunciou no último dia 12 após confirmar que era cliente fiel de uma rede prostituição. Nesse caso, afirma Talese, o escândalo foi bem-vindo. “Não é que ele esteja vivendo uma vida tão diferente de muitas outras pessoas, tendo uma prostituta, uma amante. Mas a diferença é que ele preconizava uma posição de moralidade, ele quis fechar bordéis, e aí aparece que ele era cliente de bordéis. É bom que ele seja exposto”, diz o escritor.FOLHA – O que mudou no moralismo americano entre “A Mulher do Próximo” e o escândalo sexual do governador Eliot Spitzer?
TALESE – O moralismo não mudou. A mídia mudou.
FOLHA – De que forma?
TALESE – Quando escrevi “A Mulher do Próximo”, a mídia não discutia tanto infidelidade, não transformava a vida privada das pessoas em colunas de notícias. John Kennedy foi presidente dos Estados Unidos e teve muitos casos, mas ninguém escrevia sobre sua vida sexual. Havia rumores, mas isso nunca foi conhecido, como foi com Bill Clinton, ou agora, com o governador de Nova York, ou com o senador [Larry] Craig, o homossexual [que renunciou após assediar um homem em banheiro de aeroporto, em 2007]. Na França, quando François Mitterrand foi presidente, não havia discussão sobre seu filho ilegítimo. Mas a mídia americana publica hoje sobre qualquer coisa.
FOLHA – Os eleitores levam em conta o comportamento sexual do candidato?
TALESE – Não acho que faz diferença nenhuma desde que não se relacione com seu trabalho. John Kennedy foi um presidente muito bom e tinha amantes. Bob Kennedy, seu irmão, tinha amantes. Eram casados e tinham amantes. Lyndon Johnson tinha amantes. Eisenhower. Todos nossos bons presidentes tinham amantes. O presidente Richard Nixon não tinha amantes e foi um presidente ruim. Esse cara, George W. Bush, é um presidente ruim. E não tem amantes. Entende? Bill Clinton foi muito bom e teve. Os piores presidentes são os que não tiveram amantes. Nixon foi o pior de todos os tempos. E Bush é o segundo pior. Se Bush tivesse amantes, talvez não estaria matando tanta gente no Iraque e tendo essa politica de destruir a vida de tanta gente.
FOLHA – O senhor quer dizer que, se a vida sexual de Bush fosse menos comportada, seu governo seria melhor?
TALESE – Não digo que seria melhor, mas quando você olha… Os bons presidentes não eram pessoas que se “comportavam” sexualmente. Martin Luther King tinha muitas amantes. Matin Luther King! Nós temos um feriado para ele, ele é um herói nacional. E tinha muitas amantes. Muitas. Ele era um cara mau? Não, não era.
FOLHA – O desrespeito da privacidade dos políticos é sempre ruim?
TALESE – Depende. Não é bom ou ruim. O que você quer dizer com bom ou ruim? Spitzer é um hipócrita, e é bom que ele seja exposto como hipócrita. Não é que ele esteja vivendo uma vida tão diferente de muitas outras pessoas, tendo uma prostituta, uma amante. Mas a diferença é que ele preconizava uma posição de moralidade, ele quis fechar bordéis, e aí aparece que ele era cliente de bordéis. É bom que ele seja exposto. O outro cara que o substituiu [David Paterson] diz que não tem um casamento perfeito. Mas quem tem? Pelo menos ele trouxe um pouco de verdade para o governo. Spitzer é um hipócrita.
FOLHA – Como repórter, hoje em dia, você publicaria matérias sobre esse escândalo?
TALESE – Não vou dizer que não publicaria, porque, se alguém mais publicar, você tem que publicar. Você não pode fingir que não viu, porque todo mundo sabe sobre isso, está na televisão, nos websites. Se você está no negócio de publicar jornais, tem que publicar o que é considerado notícia. É que hoje em dia tudo é notícia, o que não acontecia 30 anos atrás. É bom ou ruim? Eu não sei. O que acontece é que pelo menos força as pessoas a viverem em coerência com o que dizem.
FOLHA – O sr. avalia mesmo que nada mudou moralmente na sociedade? “A Mulher do Próximo” mostra, por exemplo, a revista “Playboy” como algo chocante e depois mais respeitada, mas hoje em dia a revista é uma instituição americana.
TALESE – Eu mostrava como aquilo mudou naquela época. Nós tivemos mudança real nos anos 1960 e 1970, quando escrevi aquele livro. Pouca coisa mudou desde então. Exceto que a mídia fala mais sobre sexo agora porque há mais liberdade para isso. Mas você não vê pessoas tendo relação sexual com penetração na TV, não ouve certas palavras na TV. Há restrição sobre o que você pode dizer, o que você pode ver. Você não pode ver homem nu na TV mostrando o pênis, não pode. No Brasil também não pode, tenho certeza.
FOLHA – Mas, se a mídia muda, a percepção da sociedade não muda juntamente com ela?
TALESE – Eu acho que a mídia mantém a história viva. Quando Bill Clinton teve uma pequena vida sexual com Monica Lewinsky, isso não tinha nada a ver com o trabalho dele como presidente. Não ocupou muito tempo dele. Mas a mídia fez uma história enorme, e aí as pessoas começam a se importar. Lembra que o papa João Paulo 2º estava visitando [Fidel] Castro naquela época? Ele estava indo para Havana e toda a mídia estava lá para cobrir o papa. Quando houve o rumor de que o presidente Clinton teve esse pequeno caso sexual no Salão Oval, todo mundo deixou Havana. Toda a mídia foi embora. E o papa não tinha com quem falar. Não havia cobertura de Castro encontrando o papa. A mentalidade da mídia está toda voltada para escândalos sexuais. A mídia conduz a história.
FOLHA – Por quê?
TALESE – Sexo não é complicado. Política é complicado. Na campanha, veja, as pessoas não ligam para propostas. Elas gostam de histórias simples, escandalosas, com o mais baixo, o menor denominador comum. E a mídia provê isso. A mídia é que conduz a história.
FOLHA – Mas por que o governador renunciou, se as pessoas não se importam tanto assim?
TALESE – A mídia faz as pessoas se importarem, porque repete, repete, repete e repete a história. Fica batendo até a morte. A mídia quer manter a história. Acho que é bom que Spitizer tenha sido exposto como hipócrita, porque é. Já Bush não é um hipócrita sexual, mas é hipócrita em várias outras formas.
FOLHA – Em que formas?
TALESE – Ele diz que estamos tentando levar democracia para o mundo. E não estamos. Estamos invadindo o mundo, forçando eles [outros países] a se ajustarem a nossa política. A administração de Bush critica os chineses em direitos humanos, e nós invadimos os países de outras pessoas e levamos atrocidades para esses países. Não estamos em uma posição em que podemos dizer que somos melhores que os outros. Somos piores, de certo modo.




14 comentários
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março 24, 2008 às 10:23 am
Marcelo Soares
Eu acrescentaria o termo “conhecidas” depois do “o Eneadáctilo não tem amantes”. Nunca se sabe. Antes de aparecer a Mônica Veloso, você diria que o pintoso Renan Calheiros tinha amantes? Eu, pessoalmente, não ponho a mão no fogo por ninguém que não seja eu próprio, e ainda assim só porque eu ando comigo o tempo todo.
março 24, 2008 às 11:02 am
Rogério
Será que ele esqueceu que Lyndon Johnson além de meter os EUA em uma guerra que faz o Iraque parecer um passeio e criar os fundamentos (depois reforçados por Nixon) da crise econômica que iria desempregar Carter em 1980, ainda mentiu para os eleitores, acusando Goldwater de fomentador de guerras, quando o próprio L J estava pronto para começar a escalada. Ou será que mentir para entrar numa guerra só é terrível quando é o Bush que faz isso? O que Nixon fez (além de sacanear outros políticos) que Johnson não fez pior? Acho que os defensores de Johnson e Carter (eu diria o mesmo dos de Nixon se ele tivesse defensores) têm um sério problema de memória ou uma triste incapacidade de aprender com a História. Nem Bush (que, certamente, merece disputar cabeça a cabeça com Carter e Johnson o título de pior presidente) conseguiu, até agora, uma derrota militar tão devastadora e desnecessária ou uma crise econômica tão destrutidora quanto a que Johnson legou aos americanos. Só um sujeito que perdeu completamente o contato com a realidade pode colocar Johnson no hall dos presidentes.
março 24, 2008 às 11:14 am
Rogério
“Matin Luther King! Nós temos um feriado para ele, ele é um herói nacional. E tinha muitas amantes. Muitas. Ele era um cara mau? Não, não era.”
Ele também era plagiário. Isso prova que todo plagiário é um Martin Luther King em potencial? Ou que plágio não deve ser punido quando descoberto? Alguém diria que, se não fosse plagiário, ele teria sido um líder menos capaz? Parece que, com toda essa bobagem, Talese resolveu se juntar a Gore e Kerry na quase impossível missão de melhorar a biografia do Bush.
março 24, 2008 às 11:38 am
ohermenauta
Em duas palavras? “Great Society”. C’mon, se Bush tivesse feito a metade disso, a sociedade americana o perdoaria até se ele tivesse entrado no Irã.
Além disso, Goldwater queria guerra…nuclear. Johnson ficou na proxy war no Vietnan.
Quanto à crise econômica de Bush, acho que o pior ainda está por vir, com o agravante de que possivelmente o grosso dela virá no mandato do próximo presidente…razão pela qual ando pensando em torcer para McCain.
março 24, 2008 às 1:16 pm
Rogério
“C’mon, se Bush tivesse feito a metade disso, a sociedade americana o perdoaria até se ele tivesse entrado no Irã.”
Verdade? A sociedade americana não perdoou nem a Ofensiva do Tet. O Vietnã destruiu Johnson e acabou com Humphrey (que foi humilhado até a morte em uma música do Tom Leher). Embora, mandar os pobres para morrer no Vietnã seja um jeito criativo de declarar Guerra à Pobreza, eu reconheço.
“Além disso, Goldwater queria guerra…nuclear. Johnson ficou na proxy war no Vietnan.”
Quem disse? O “Daisy Ad” ou o sujeito que enganou um país inteiro fingindo querer paz e, depois das eleições, começou a escalada? Aliás, Goldwater, em seu discurso de aceitação da candidatura, disse o que os democratas fizeram de tudo para esconder: Johnson tinha jogado os EUA em atrito sem objetivos claros (o que durante anos, serviu para inibir o aventureirismo de certos presidentes) , que o governo estava escondendo do Povo quão grave era a situação e que os democratas tinham perdido a Europa Oriental, a China, Cuba (diga-se de passagem, estavam a caminho de perder o Irã).
Tendo em vista, a evolução das condições de vida das pessoas, a queda do nível da educação (um dos itens principais do Great Society), a explosão de violência que só agora começa a declinar e a crise econômica provocada pelos gastos irresponsáveis de Johnson e ainda o atoleiro no Vietnã e the mixed results da Guerra Contra a Pobreza, não vejo como o legado do Great Society possa justificar colocar Johnson entre os bons presidentes.
Pode ser que Bush venha a ser o novo LBJ, mas ainda não sabemos. Não nego a possibilidade e acho Bush péssimo, mas não posso deixar de reparar nessa política de dois pesos e duas medidas. Se quem mente é democrata, ótimo; se é republicano, é um absurdo. Se a crise é criada por um democrata, o sujeito é um herói; se a culpa é do Bush, nem bem começou e já é um novo Dilúvio. O grande mérito do Bush é ter inimigos que o colocam para concorrer com Gore, Kerry, LBJ, Carter. Espera, Carter não tinha amantes tinha? Talvez, Talese esteja mais certo do que eu pensava.
Abraços.
março 24, 2008 às 2:55 pm
ohermenauta
É um bom ponto. Aliás a sociedade americana não está perdoando nem 4.000 soldados mortos no Iraque, apesar de já não existir a conscrição. Mas não é como se a história tivesse sido diferente se os republicanos tivessem levado a melhor na eleição. Aquela era a época da guerra fria, e a sociedade americana, desde a II Guerra Mundial, sempre reagiu muito mal ao chamado do isolacionismo. O fato é que republicanos e democratas acreditavam na teoria do dominó nos anos sessenta e a política americana no Vietnã dificilmente teria sido diferente sob os republicanos _ já a política social, sim. Mas até reconheço que Goldwater era um animal político diferente dos atuais neocons.
No entanto acho que uma coisa é o julgamento imediato de um governante, outro o julgamento feito pela história. A guerra do Vietnam foi de fato uma lição amarga para o expanismo americano, mas não acho que vá merecer mais do que uma ou duas páginas em um livro de história escrito daqui a duzentos anos. Já a questão dos direitos civis jamais deixará de ser lembrada.
março 24, 2008 às 4:23 pm
Marcos Nowosad
E o Ronald Reagan? O velhinho de 70 anos teve amante durante a presidencia?
março 24, 2008 às 4:25 pm
ohermenauta
O Sildenafil só foi aprovado pela FDA em 1998.
março 24, 2008 às 8:00 pm
Rogério
“A guerra do Vietnam foi de fato uma lição amarga para o expanismo americano, mas não acho que vá merecer mais do que uma ou duas páginas em um livro de história escrito daqui a duzentos anos.”
Acho que concordamos muito mais do que discordamos. Só penso que, para aprovar os direitos civis, não era necessário arrebentar todo o resto (do mesmo modo, agora sabemos que internar os nipo-americanos não era essencial para vencer o fascismo. Vivendo e aprendendo). Uma abordagem um pouco menos radical no campo do combate à pobreza teria, eu acho, permitido um avanço mais sólido e duradouro. E LBJ foi tanto no Senado como na presidência um digno precursor de Nixon, Bush, Karl Rove e outras figuras políticas conhecidas por seu caráter. E quem sabe? O velho ditado diz que “só Nixon poderia ir à China”. Quem garante que Goldwater não teria começado a détente mais cedo? Um fato permanece: Carter não tinha amantes.
março 24, 2008 às 8:06 pm
ohermenauta
Apesar de todo o amendoim, Carter era um carola.
março 24, 2008 às 8:15 pm
Rafael Figueira
Reagan pode nao ter tido amantes qd presidente, mas nos anos 50 ele se envolveu num date-rape em q quase nao houve dating…
março 24, 2008 às 9:24 pm
Rogério
No caso de Carter, o método Talese de julgar presidentes funciona. E Salomão, que tinha 700 mulheres e 300 concubinas, não foi o mais sábio rei? Hoje, em dia, ele não ganharia uma primária em Catolé do Rocha; se ganhasse, teria que renunciar depois de um escândalo colossal. Há quem diga que, na era da televisão, é praticamente impossível eleger gente feia, há quem diga que a imprensa de hoje teria destruído Roosevelt e Kennedy com suas escapadinhas e há quem diga que os democratas escolhem gente sem esqueletos no armário e sem personalidade e por isso são massacrados nas urnas. Eu digo que Bush e Carter-em vez de Salomão e Kennedy- são o preço que pagamos pelo nosso moralismo. Taí, Talese não está tão errado assim, não. Portanto, a questão de maior relevância´para o mundo livre é: alguém sabe como anda a libido do McCain? Ele aguenta o tranco?
Verdade, Rafael? Confesso que não sabia? Pode citar alguma fonte?
março 24, 2008 às 9:45 pm
Rafael Figueira
http://us.imdb.com/name/nm0910366/bio
http://www.google.com/search?q=Selene+Walters
março 24, 2008 às 10:56 pm
Rogério
Isso é realmente muito triste. Obrigado pelas fontes.