Tio Rei revela-se em um post recente, justificando a ação do FED para salvar os bancos:

O esgar de desprezo dos “estatistas” vem na forma de uma sentença moral: “Ah, mas agora que o sistema está em crise, apelam ao estado; vejam lá os EUA queimando US$ 200 bilhões para salvar os bancos”. Para salvar os bancos uma pinóia! Para salvar as pessoas. Se temos de agüentar o estado, é justamente para que ele entre na arbitragem quando o sistema tende a entrar em colapso. A comparação é quase pedestre, mas pretendo ser mesmo didático: a inspetora de alunos deve intervir na brincadeira quando as crianças começam a enfiar o dedo umas nos olhos das outras. No mais, deixa a meninada brincar à vontade, porque assim crescem os infantes.

Queriam o quê? Que o sistema fosse mesmo para a breca só para moralizar a alma dos banqueiros cúpidos, demonstrando que agiram muito mal? Tenham paciência! A crítica é energúmena e remete, de fato, àquela conversa mole do petismo que censurou o Proer no Brasil, o programa de reestruturação dos bancos. Até hoje alguns mequetrefes petralhas dizem que foi dinheiro para ajudar banqueiro. Não foi. Era dinheiro para reestruturar o sistema financeiro, que, sólido, permite hoje ao Brasil enfrentar a crise com razoável galhardia.” (grifo meu)

Em outro post ele transcreve, provavelmente porque aprova, trechos de um podcast de Diogo Mainardi:

Se o jiu-jítsu é de direita, o pilates só pode ser de esquerda. Dilma Rousseff, a Miss Pacderme, emagreceu doze quilos com o pilates. No pilates, você não se esforça – é o aparelho que faz tudo por você. Nada pode ser mais genuinamente esquerdista do que isso. É a idéia de que sempre há uma estrutura capaz de resolver todos os empecilhos.“(grifo meu)

E afinal de contas, já sabemos o que ele pensa do Bolsa-Família:

Conformar-se com o Bolsa Família como motor do desenvolvimento social brasileiro e grande fator da diminuição da desigualdade é renunciar à aspiração de deixar de ser, um dia, um país pobre. O pretexto, como se vê, é meritório: é preciso dar pão a quem tem fome. Vão se catar! É preciso dar esgoto tratado a quem não tem pra que o sujeito não pise no cocô com o pé descalço e não contraia uma diarréia, lotando os hospitais públicos. É preciso dar escola — DECENTE! — a quem não tem. Com inflação sob controle, dadas as raríssimas exceções, não se morre de fome de jeito nenhum. De resto, não estou propondo entesourar os R$ 8 bilhões. Estou cobrando que sejam investidos: sim, no social, em vez de consumidos para a produção de mais cocô sem tratamento.“(grifo RA)

Tio Rei não gosta do “Nanny State” que ajuda os miseráveis.  Claro que isso exige alguma ginástica mental, como a de não ver relação entre miséria e pobreza e o elevado número de pessoas nas prisões paulistas.  Mas aprova sem ressalvas o “Daddy State” que ajuda os banqueiros _ e olhe que nem exige uma “porta de saída”…

Entre a classe dos economistas, a necessidade de salvar instituições financeiras em dificuldades é praticamente um consenso.  Bancos _ principalmente os grandes _ são instituições “grandes demais para falir”: como são eles que guardam os recursos financeiros da maior parte das pessoas, acredita-se que a saúde dos bancos é fundamental para a saúde da economia como um todo, e que a falência de um banco grande pode provocar um efeito-dominó capaz de gerar uma “corrida aos bancos”, e uma quebradeira geral de empresas.  A isso chama-se “risco sistêmico”.

A contrapartida dessa ação estatal, porém, é o perigo do “risco moral”: como os banqueiros sabem que são grandes demais para falir, incorrem em riscos cada vez maiores, em busca de maiores lucros _ e acabam, realmente, falindo.  Mas eles sabem, afinal, que “sempre há uma estrutura capaz de resolver” todos os seus empecilhos _ efetivamente, não há nada de mais direitista do que isso, a privatização do lucro seguida da socialização dos prejuízos.

Mais interessante ainda é o fato de que certo tipo de análise não vê nenhum problema no combate ao risco sistêmico da riqueza, mas é alérgica à idéia do risco sistêmico da pobreza _ que é aquele embutido no ato de sair de casa de manhã sem saber se se volta para casa à noite.  Eis a receita de Daddy State: salvam-se banqueiros, encarceram-se pobres.