No Alon, um post sobre a entrevista dada pelo nosso Chanceler a respeito do ataque da Colômbia à base das FARC no Equador. O enfoque é partisan:

O baile de Amorim (16/03)

Fred Melo Paiva entrevistou Celso Amorim para o Estadão. O chanceler deu um baile. Transcrevo alguns trechos. Se você prefere ler na íntegra, clique aqui para ir ao site do Itamaraty.”

Talvez alguns dos meus 4,5 leitores tenha acompanhado minha discussão com Arranhaponte e outros lá no Torre de Marfim sobre a questão das FARC. Lá, sumarizei minha posição a respeito do conflito da seguinte forma:

Eu estou menos interessado em fazer uma “defesa” das FARC do que entender suas motivações e objetivos políticos, bem como o da parcela da população que os apóia. É mais que evidente _ até para eles mesmos _ que as FARC não têm nenhuma capacidade de derrubar o poder central na Colômbia. Por outro lado, dificilmente eles seriam capazes de sobreviver sem algum apoio das populações da região onde são hegemônicos. Esse é um problema político da Colômbia que tem que ser resolvido. Eu não sou ingênuo a ponto de desconsiderar soluções de força _ e acho que um governo democraticamente eleito poderia ter legitimidade, sim, para esmagar um movimento armado radical para depois tentar sanar as feridas. Só acho, pessoalmente, que com seu passado Uribe dificilmente será o homem capaz disso. Como eu já disse, e você poderá confirmar facilmente no Google, as FARC já tentaram participar do processo político formal só para terem seus candidatos assassinados pelos pára[militares]. Acho que isso revela um pouco sobre com quem se está lidando ali.

Isso não me impede, porém, de verificar certas inconsistências no discurso brasileiro. Por isso escrevi o seguinte no supracitado post do Alon:

Baile? Acho que ele dançou, isso sim. Exemplo:

Por que não classificamos as Farc como movimento terrorista? Porque o Brasil não tem a prática de fazer classificações desse tipo, a não ser que tenha antes sido feita pela ONU.”

ISSO é uma desculpa das mais esfarrapadas, creio, para um país que pretende ter um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, não? Porque um país assim deve liderar e moldar a opinião dentro da ONU, e não segui-la passivamente, creio eu.

Francamente, não dá para pleitear um assento no CS da ONU com uma política dessas.

Eu continuo acreditando que a timidez brasileira em relação às FARC deve-se muito menos às proclamadas afinidades ideológicas do atual governo brasileiro com o movimento guerrilheiro do que com a preocupação há anos existente, entre os meios militares, com um eventual trasnbordo das FARC para dentro do território brasileiro se as forças armadas colombianas conseguirem desalojar as FARC de seus atuais santuários ao sul do país. Reflexos desse temor podem ser captados, por exemplo, nesta entrevista concedida pelo general Augusto Heleno Ribeiro, responsável pelo Comando Militar da Amazônia, à Agência Brasil, dia 11 de março deste ano:

 

Agência Brasil: Qual é a extensão da fronteira que está sob sua responsabilidade?
Augusto Heleno Ribeiro: A nossa fronteira na Amazônia é de 11,5 mil quilômetros. É uma fronteira de características muito especiais, porque a grande parte é área de selva, de mata fechada, algumas balizadas por cursos d’água, outras sem nenhum balizamento, a não ser marcos de fronteiras que são instalados mas não são vistos. Nessa área de 11,5 mil quilômetros temos um dispositivo que consideramos razoável para a vigilância dessa fronteira. É uma fronteira de pontos nítidos de penetração, principalmente os rios que vêm dos outros países, entram na Amazônia brasileira, e temos na maioria das calhas desses rios mais importantes os nossos Pelotões Especiais de Fronteira, que têm de 40 a 60 militares e que são tenentes e sargentos especialistas em operações na selva e cabos e soldados da área, que conhecem profundamente a selva amazônica, e que têm a selva como aliada. Eu tenho dito que o nosso grande poder de dissuasão é a qualidade do nosso combatente de selva, que é inegavelmente o melhor combatente de selva do mundo. É baseado nisso que nós confiamos no nosso poder de dissuasão.

 

ABr: Quantos homens existem para defender a região?
Ribeiro:
Nós temos hoje na Amazônia 25 mil militares, mas não estão todos na fronteira. Na fronteira, nós temos 28 organizações militares: 26 Pelotões Especiais de Fronteira, duas Companhias Especiais de Fronteira, que têm de 150 a 180 militares, e três destacamentos, com um efetivo um pouco menor, e que mais tarde serão transformados em Pelotões Especiais de Fronteira. (…).

ABr: As condições de trabalho são satisfatórias?
Ribeiro: As condições de trabalho na Amazônia são sempre muito difíceis. É uma área especial, onde o calor, a umidade e a própria selva, para quem não está habituado são adversários poderosos, então tem que considerar que as condições climáticas exigem muito do homem daqui. A gente quando chega aqui precisa de um período de adaptação para o organismo poder se habituar àquela perda de líquido que é natural numa umidade muito alta, um calor intenso. Esses nossos militares já têm essa adaptação, são homens, a maioria gente da área, que não têm nenhum problema dentro da selva. Mas os Pelotões Especiais de Fronteira são clareiras na selva, onde as condições de vida são bastante precárias. Ainda hoje, no início do século 21, eles não têm luz 24 horas por dia, precisam ter um apoio mais efetivo do ponto de vista de recursos de comando e controle, capacidade de se ligar aos seus comandantes de brigada e mesmo a Manaus ou a Belém com mais facilidade.

ABr: É preciso um reaparelhamento?
Ribeiro: É interessante que a gente se preocupe em reaparelhar essa unidades com equipamentos individuais. Nosso fuzil, que é o armamento individual do combatente, tem 43 anos de uso, as nossas lanchas voadeiras podem ser melhores, mais rápidas, mais potentes, nós precisamos ter mais meios aéreos aqui na Amazônia, principalmente helicópteros, que me permitem um deslocamento rápido e quase sempre com qualquer condição meteorológica. E não é só para efeito de guerra. Eles são extremamente importantes como auxílio à população, porque toda vez que tem uma situação de calamidade na Amazônia nós somos requisitados imediatamente, seja seca, enchente, gente que precisa ser evacuada para um atendimento médico melhor, então eu preciso de meios que me permitam deslocar rapidamente na área amazônica. Os rios são as grandes estradas da Amazônia, mas o transporte fluvial é lento. O transporte que funciona melhor é o aéreo. Então, os meios de transporte aéreos aqui na Amazônia são fundamentais, não só para operações militares mas também para o que chamamos de ‘mão amiga’, para que o Exército possa atuar em todos os momentos de crise ou de calamidade
.

(…)

Agência Brasil: Existe algum tipo de infiltração das Farc no Brasil?
Augusto Heleno Ribeiro: Nós tivemos um incidente com as Farc em 1991, conhecido como incidente do Traíra, onde uma patrulha das Farc atacou uma posição nossa, completamente de surpresa, como acontece com ações de um grupo guerrilheiro com tendência terrorista. Houve uma reação imediata, bastante robusta, em que nós mostramos a eles que não éramos um alvo compensador. A partir daí, não tivemos mais nenhum problema com as Farc. Hoje, temos consciência de que alguns elementos das Farc vêm ao Brasil para adquirir suprimentos, porque é mais perto das posições que eles ocupam no interior do território colombiano do que qualquer outro lugar. Só que eles não vêm ao Brasil nem armados, nem uniformizados, nem com carteirinha de guerrilheiros. Eles entram no Brasil legalmente, com passaporte colombiano, legalizado, têm todo o direito de transitar no território brasileiro. Nós somos um país que sempre acolhemos todos os estrangeiros com muita fidalguia, muita cordialidade. Eles vêm ao Brasil, compram e levam para o seu país, pagando os impostos, pagando o preço que é cobrado, e não podemos impedir esse tipo de comércio. Apesar de nós imaginarmos que esses mantimentos façam parte do suporte logístico das Farc.

 

 

ABr: E, nesse caso, não há o que fazer?
Ribeiro:
É muito difícil, porque como você vai coibir o direito de ir e vir? Você vai acabar fazendo os inocentes pagarem pelos pecadores. Ninguém tem escrito na testa que é guerrilheiro, então fica muito difícil
.

 

ABr: E o que é feito para evitar a entrada de drogas das Farc no país?
Ribeiro:
Aí já é um problema mais complexo, porque a droga também não é carimbada com nada das Farc. As drogas vêm de diversas origens, o narcotráfico é uma realidade, extremamente difícil de ser controlado. As nossas fronteiras na Amazônia são de 11,5 mil quilômetros, a maior parte é área de selva fechada. Então, a permeabilidade de indivíduos e de pequenas canoas por rios pequenos, e o trânsito que existe na Amazônia de pequenas embarcações favorece esse tipo de vai-e-vem na fronteira. E, se consideramos que a fronteira entre o México e os Estados Unidos tem 2,5 mil quilômetros, praticamente a quinta parte da nossa e que eles não conseguem controlar essa fronteira, pode imaginar a dificuldade que é uma fronteira de 11,5 mil quilômetros. É extremamente difícil esse controle. Então, não se sabe exatamente se o tóxico é das Farc, se é do produtor independente, se vem de outros países. Nós sabemos que hoje o tráfico aéreo diminuiu, por conta da vigilância exercida pelo Sipam e o Sivam
[Sistema de Proteção da Amazônia e Sistema de Vigilância da Amazônia] e as calhas dos rios estão sendo mais utilizadas como meio de introdução de drogas no país. O esforço da Polícia Federal é considerável, nós temos feito um trabalho enorme para nos aproximar da Polícia Federal nesse trabalho, para podermos trabalhar juntos.

Não que o Brasil esteja totalmente desprovido de meios para oferecer resistência as FARC. A figura abaixo mostra o raio de alcance dos SuperTucano brasileiros estacionados na base aérea de Porto Velho, Rondônia [ o raio mostrado é de 2.200Km, o alcance máximo do SuperTucano é 4.800Km - portanto o raio pressupõe a capacidade de ida e volta, mais uma folga de 400Km para manobras no teatro de operações]:

supertucanorange.jpg

Como vemos, os SuperTucano, aviões ideais para ataque ao solo em ações de contra-insurgência, têm a capacidade de patrulhar toda a região amazônica, com especial destaque para as regiões de fronteira com a Colômbia. Isso dá ao Brasil algum poder de ataque direto, por exemplo, a eventuais acampamentos das FARC em território brasileiro (uma vez localizados, o que não é necessariamente fácil), mas não facilita muito a capacidade de negar “staying power” a destacamentos menores e mais móveis das FARC.