
O longo prazo é isso aí
Deu no UOL:
“Estudiosos concordam que a ressurreição de Cristo é muitas vezes mal compreendida
Peter Steinfels
Neste momento em que os cristãos na maior parte do mundo se preparam para comemorar a Ressurreição de Jesus, é surpreendente constatar que três estudiosos, todos conhecidos pela atenção escrupulosa dada à tradição teológica e às fontes bíblicas, concordam que a idéia da ressurreição é muito mal compreendida por um grande número de pessoas.
É mal compreendida não apenas por aqueles cujas sensibilidades contemporâneas os restringem a afirmar apenas que a ressurreição simboliza uma espécie de vitória vaga (e provavelmente temporária) da vida sobre a morte. Mas também por muitos crentes devotos que se consideram extremamente fiéis aos ensinamentos religiosos tradicionais.
Kevin J. Madigan é um católico que leciona História Cristã na Divinity School da Universidade Harvard. Jon D. Levenson, um colega de Harvard, é um judeu que leciona Estudos Judaicos. Juntos eles escreveram o livro “Resurrection: The Power of God for Christians and Jews” (”Ressurreição: O Poder de Deus para Cristãos e Judeus”). O livro, que será publicado no mês que vem pela editora Yale University Press, argumenta que a idéia de que Deus trará os mortos à vida no fim dos tempos é central tanto para as tradições judaicas quanto cristãs.“
Ou, mais explicitamente,
“Os livros convergem no desafio a várias idéias generalizadas. Eles sustentam que a ressurreição não significa simplesmente ir para o céu para uma vida após a morte.
(…) ambos os livros enfatizam que nos ensinamentos clássicos judaicos e cristãos o conceito refere-se à ressurreição coletiva de pessoas e à renovação de toda a criação no fim dos tempos.
A ressurreição estava vinculada à expectativa de julgamento e de um triunfo final da justiça. Foi esta a idéia de ressurreição que se desenvolveu quando os judeus retornaram do exílio e lutaram contra a dominação estrangeira no período anterior a Jesus. Foi essa idéia de ressurreição que os cristãos tinham em mente quando declararam que aquilo que ocorreu na Páscoa foram os “primeiros frutos” do que estava por vir.
Os autores insistem no aspecto corporal e comunal da ressurreição, uma visão que compete há muito tempo com um dualismo helenístico filosófico e especialmente platônico, segundo o qual um intelecto ou espírito individual desencarnado poderia ser salvo do seu corpo corruptível e corruptor.“
E mais:
“Esse dualismo helenístico atingiu o seu apogeu no gnosticismo, que quase que invariavelmente afirmou a incompatibilidade entre espírito e matéria, e procurou a salvação na remoção do corpo material. Madigan, Levenson e Wright vêem as posições antignósticas dos fundadores da igreja e sábios rabínicos como uma defesa apropriada das crenças centrais das suas tradições e não, conforme se argumentou recentemente, como uma tática de política religiosa.
Ao contrário do gnosticismo, o judaísmo e o cristianismo, de maneiras diferentes, pregam o caráter positivo da criação e a natureza imperfeita dos seres humanos. Segundo a opinião desses autores, isso permite que ambas as tradições religiosas evitem a ilusão de que a humanidade é capaz de construir um mundo perfeito por conta própria, e ao mesmo tempo instilam nos seres humanos a confiança em que o bem que estes farão será finalmente reconhecido e completado pelo Deus da Ressurreição.“
April DeConick tem um belo post sobre a política religiosa entre a proto-ortodoxia (um termo que ela aliás não gosta, preferindo “igreja apostólica”) e as escolas gnósticas, comentando o novo livro de Bart Ehrman:
“One of my undergraduate students this week asked me about the problem of suffering in relation to Bart Ehrman’s newest book, saying that although Ehrman does not try to convert his reader to agnosticism, that my student now realizes that the challenges theodicy poses to Christianity are enormous.
For those of us who study these materials this is not a new problem. In fact it goes back to the first century in Christian literature. And we know that the problem was actually solved by many groups of Christians in the early second century. Look at the Valentinians. They argued that suffering is part of God’s own experience as he-she developed self-consciousness. It is part of God’s nature, and resulted in the creation of this world through a lesser (although not evil) creator god (whom Jesus actually saves in the end!). So the descent of the redeemer is about God joining humans in our suffering in order to alleviate it through the redemptive plan that he put into place, an alleviation that will happen at the end of time as we know it.I say this because theodicy is not a problem for Christians UNLESS God is conceived as the ONLY God who is all-powerful, all-knowing, AND all-loving. If your religious system allows for polytheism like Marcionite Christianity which has the good merciful God who intervenes in a world not his own run by an just and wrathful God named Yahweh - no problem. If your religious system allows for a God whose right hand is good and whose left hand is evil as some forms of Judaism promoted - no problem. If your religious system allows for karma as Buddhism and Hinduism - no problem. Or, as in the case of the Valentinian Christians, if suffering is in God’s nature, and there are lesser beings who become responsible for creation, then theodicy is no problem.
I write this to say again how important it is to remember the “others”, the forms of Christianity that did not win the day. They did not lose the day because they didn’t have solutions to age old problems. In fact, these forms of Christianity developed to SOLVE these age old problems. In the end, it was not theology that distinguished the Apostolic church and gave them the upper hand. The more I study the problem, the clearer it becomes to me that the reasons for victory had more to do with politics and social issues than anything else.“
Esse outro post dela tem mais a ver com a questão da ressurreição dos mortos:
“The question of the historicity of the resurrection of Jesus is a fine example of this as we have discussed on this blog and others in the past. As a historian, this is not a historical event because dead bodies don’t rise. It is a faith event. Even the second century Valentinians seem to have understood this. What did the Valentinian teacher tell Rheginus about this? He said quite bluntly, “For, my child, ‘the dead shall rise!’ belongs to the domain of faith, not of argument.”
If my task is to understand whether or not Athens has anything to do with Jerusalem as a believer, this is quite a different thing. Here each person must decide whether faith needs reason. This means that one must decide what “faith” is. I think that certain forms of Christianity have usurped the meaning of faith over the centuries so that today it is often tauted as believing doctrines that go against science or logic. When I study the ancient sources, however, “pistis” is something quite different from this modern definition. It is a person’s relationship with “the holy,” a relationship that is lived through imitation of saintly people and piety.
My own feeling on this issue is that faith without reason is futile, that a reasoned faith is necessary. This is not to say that reason is the entire realm of our knowledge. There is knowledge other than reason. But even this is supported by reason which is necessary in order to grasp and translate this kind of knowledge into something recognizable.“
***
Outras discussões interessantes sobre a Ressurreição aqui, aqui, aqui e acolá.


4 comments
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Março 15, 2008 às 3:13 pm
João da Luz
Nada sobre Curupiras e Sacis Pererês?
deus não é GRANDE é legal tb.
Março 15, 2008 às 5:20 pm
Bruno
Se a rescurreição é de todos os homo sapiens, como crer que o mundo será melhor se simplesmente voltaremos, todos, ao mesmo? Ou será que é algo inerente ao Catolicismo acreditar que somente os fiés específicos à essa aforementioned religião serão aqueles que voltarão?
Fato é: não é preciso muito para questionar qualquer religião quando se estuda um mínimo de cada uma. Na análise das escrituras e de conceitos gerais se encontra inúmeras incoerências e problemas - que dificultam a compreensão e assimilação de dogmas impostos de maneira tão inócua e estranha.
Esse povo, que durante séculos talhou as escrituras para fazer esse livrão aí que muitos lêem hoje, criou esse povo de hoje, que ainda acredita no fim dos tempos e na redenção divina.
Março 16, 2008 às 4:50 pm
Emerson
A ressurreição em carne e sangue é mostrada em Ezequiel 37
5. Eis o que vos declara o Senhor Javé: vou fazer reentrar em vós o sopro da vida para vos fazer reviver.
6. Porei em vós músculos, farei vir carne sobre vós, cobrir-vos-ei de pele; depois farei entrar em vós o sopro da vida, a fim de que revivais. E sabereis assim que eu sou o Senhor.
7. Profetizei, pois, assim como tinha recebido ordem. No momento em que comecei, um barulho se fez ouvir, em seguida um ruído ensurdecedor, enquanto os ossos se vinham unir aos outros.
8. Prestando atenção, vi que se formavam sobre eles músculos, que nascia neles carne e que uma pele os recobria. Todavia, não tinham espírito. …
Apesar de serem historicamente interessantes porque mostram de alguma forma o enorme tempo gasto nos problemas de interpretação da Biblia, essas discussões sobre o problema da ressurreição são bem antigas. Já no começo do século XX (1907) no decreto Lamentabili o Papa Pio X condenava as seguintes proposições do padre Liosy, que terminou excomungado:
35 Nem sempre Cristo teve consciência de sua dignidade messiânica.
36 A ressurreição do Salvador não é propriamente um fato de ordem histórica, mas de ordem meramente sobrenatural que não foi demostrado, nem é demonstrável, e que a consciência cristã insensivelmente deduziu de outros fatos.
37 A fé na ressurreição de Cristo consistia a princípio não tanto no próprio fato da ressurreição quanto na vida imortal de Cristo junto de Deus.
38 A doutrina sobre a morte expiatória de Cristo não é evangélica, mas somente paulina (de S. Paulo).
A doutrina de Valentino é do tipo gnóstica conforme afirma Hans Jonas em La Religión gnóstica, pois pregava uma dualidade na divindade:
“Nas alturas invisíveis e inumeráveis, existe um Éon perfeito pré-existente, chamado Antes-do-Começo, Pró-Pai e Abismo. Ninguém ou coisa alguma pode compreendê-lo (captá-lo, contê-lo). Ele permanece tranqüilo e em profundo repouso. Com ele coexiste a Ennoia (Pensamento) também chamada Graça ou Silêncio. Um dia, este Abismo teve o pensamento de projetar fora de si mesmo o Começo (Princípio) de todas as coisas e, como uma semente, ele depositou este projeto no seio do Silêncio, coexistente com ele, e ele concebeu e gerou Intelecto (Nous, masculino),….”
Lendo-se este e outros livros como o de Kurt Rudolph “Gnosis” pode-se ver que esse negócio de gnose era puro delírio, mais ou menos como as infinitas igrejas de porta de garagem hoje onde cada uma delas diz ser a salvação e ser fiel a Biblia. Na época essas histórias cheias de genealogias divinas aparentemente conseguiam obter um enorme sucesso para explicar o problema do mal no mundo…
Março 16, 2008 às 11:24 pm
ohermenauta
Emerson,
Justamente, e a proto-ortodoxia era justamente apenas mais uma dessas “igrejas de porta de garagem” até que conseguiu sobrepujar as demais _ e aí o papel de Constantino para dar um empurrãozinho nào foi desprezível.
Eis porque disse em um post mais antigo que a diferença entre a ICAR e a IURD é de dois mil anos.