Texto porreta do William Baumol no Valor de hoje:
“Capitalismo bom, capitalismo ruim
Por William Baumol, Carl Schramm e Robert LitanMuitas pessoas presumiram que quando o Muro de Berlim caiu, em 1989, o “capitalismo” havia vencido a Guerra Fria ideológica e que o “comunismo” havia perdido. Embora o “capitalismo”, definido como um sistema econômico construído sobre a titularidade privada da propriedade, claramente tenha prevalecido, existem muitas diferenças entre os quase 200 países que hoje o praticam de alguma maneira.
Consideramos prático dividir as economias capitalistas em quatro categorias amplas. Embora muitas economias assumam uma posição neutra em relação a elas, a maioria se enquadra essencialmente em uma delas. A tipologia adiante ajuda a explicar porque algumas economias crescem mais velozmente que outras.
O resto do texto está abaixo do fold, na íntegra.
Baumol defende que existam 4 “tipos ideiais” de capitalismo: o oligárquico, o de Estado, o das grandes corporações e o de empreendedorismo.
Esta tipologia é interessante para entender o Brasil e as opções que se colocam diante dele no momento. Aparentemente, no processo político atual existe uma grande novidade: é que parte da direita entendeu aquilo que a esquerda sabe há tempos _ que o nosso capitalismo é da variedade oligárquica. Essa hodierna ojeriza que a “nova direita” desenvolveu pela “velha direita” a leva até mesmo ao extremismo de dizer que a “velha direita” é, na verdade, “de esquerda”.
Sua agenda, que se pode resumir no plano econômico em “menos Estado”, é compatível com a emergência de uma classe empreendedora. Neste sentido, devo até reconhecer que uma parte do “anaerobismo” tem lá seu valor. Falo “parte” porque, como sabemos, o anaerobismo em flor dá desde gerânios como Reinaldo Azevedo, a margaridas como Rodrigo Constantino e cravos de defunto como Olavo de Carvalho _ entre outras florzinhas.
Discordo, porém, da conclusão do artigo de Baumol:
“O desafio, portanto, para todas as economias que procuram maximizar o seu potencial de crescimento, é identificar a combinação correta de capitalismo gerencial e empreendedor. Economias nas quais empreendedores prosperam atualmente não podem se tornar complacentes. Economias dirigidas pelo Estado podem manter sua rota de crescimento acelerado, mas acabarão tendo de fazer uma transição para uma mistura compatível das duas outras formas de “capitalismo bom”, se quiserem continuar com seu crescimento veloz.“
Não entendo porque ele não admite que nesse mix o capitalismo de Estado também faz algum sentido _ ou senão o capitalismo de Estado, ao menos o papel do Estado no direcionamento da atividade econômica, algo que, como sabemos, existe nos próprios EUA e vai muito bem, obrigado. Esta voluntária decisão de não ir mais à fundo na sua investigação me parece ser a principal falha de Baumol, e talvez um exemplo clássico do uso de antolhos ideológicos.
O capitalismo oligárquico ocorre nos lugares nos quais o poder e o dinheiro estão altamente concentrados na mão de poucos. Esta é a pior forma de capitalismo, não só devido à extrema disparidade de renda e riqueza tolerada por essas economias, mas também porque as elites não promovem o crescimento como meta central da política econômica. Em vez disso, a oligarquia estabelece as regras para maximizar sua própria renda e riqueza. Esses esquemas predominam em vastas regiões da América Latina, do Oriente Médio árabe e da África.
O capitalismo guiado pelo Estado define economias nas quais o crescimento representa um objetivo econômico central (como o é nas outras duas formas de capitalismo), mas tenta atingi-lo favorecendo empresas ou setores específicos. Governos destinam crédito (através de bancos estatais ou orientando decisões de crédito através de bancos privados), fornecem subsídios diretos e/ou incentivos fiscais, concedem proteção ao comércio, ou usam outros dispositivos reguladores na tentativa de “escolher vencedores”.
As economias do Sudeste Asiático demonstraram enorme sucesso com a orientação estatal e, até o fim da década de 1990, surgiram apelos nos Estados Unidos para copiar as suas práticas. Mas o calcanhar de Aquiles da orientação estatal é que, no momento em que essas economias se aproximam da “fronteira da possibilidade de produção”, os formuladores de política ficam sem setores ou tecnologias para copiar. Quando as autoridades dos governos, em vez dos mercados, tentam escolher os próximos vencedores, correm um grande risco de escolher os setores errados, ou de canalizar investimento demais - e, portanto, excesso de capacidade - a setores existentes. Esta tendência contribuiu de forma significativa para a crise financeira asiática de 1997-1998.
O capitalismo das grandes empresas, ou gerencial, caracteriza economias nas quais as grandes empresas - freqüentemente chamadas de “símbolos nacionais” - dominam a produção e o emprego. Existem empreendimentos menores, mas geralmente são varejistas ou prestadoras de serviço com um ou alguns poucos empregados. As empresas crescem por meio da exploração das economias de escala, refinando e produzindo em massa as inovações radicais desenvolvidas por empreendedores (discutidos adiante). As economias da Europa Ocidental e do Japão são importantes exemplares do capitalismo gerencial, que, a exemplo da orientação estatal, também apresentaram vigoroso desempenho econômico.
O capitalismo gerencial, porém, também tem seu calcanhar de Aquiles. Empreendimentos burocráticos na maioria das vezes são alérgicos a assumir grandes riscos - ou seja, a desenvolver e comercializar as inovações radicais que impulsionam a fronteira da possibilidade de produção e que geram enormes saltos sustentados em produtividade e, portanto, no crescimento econômico.
Sem empreendedores, poucas dessas inovações realmente ousadas que moldaram a nossa economia moderna e a nossa vida estariam disponíveis
Empresas de grande porte são geralmente avessas ao risco, não só por serem burocracias, com vários níveis de administração necessários para aprovar qualquer inovação, mas também porque elas não estão dispostas a apoiar inovações que ameacem tornar obsoletos os produtos ou serviços que atualmente respondem por seus lucros. Em nossa opinião, os limites do capitalismo gerencial explicam porque, depois de terem se aproximado dos níveis de renda per capita dos EUA no fim da década de 1980, nem a Europa Ocidental ou o Japão conseguiram se equiparar ao ressurgimento da produtividade movida a tecnologia de informação que começou na década de 1990.
Isso conduz ao quarto tipo: capitalismo de empreendedores. Economias nas quais o dinamismo vem de novas empresas historicamente comercializaram as inovações radicais que continuam impulsionando a fronteira da possibilidade de produção. Exemplos dos dois séculos passados incluem produtos e inovações transformadores como ferrovias, automóveis e aviões; telégrafo, telefones, rádio e televisão; ar condicionado; e, como foi observado há pouco, as várias tecnologias responsáveis pela revolução na TI, incluindo os computadores pessoais e os computadores de grande porte, roteadores e outros dispositivos de hardware, e grande parte do software que os faz funcionar.
Certamente, nenhuma economia pode consumar o seu potencial pleno tendo apenas empresas empreendedoras. A combinação ideal de empresas contém uma vigorosa dose de empreendimentos de grande porte, que dispõem dos recursos financeiros e humanos para refinar e produzir em massa as inovações radicais, juntamente com firmas mais novas.
Foi necessário que a Boeing e outras grandes fabricantes de aviões, por exemplo, comercializassem o terreno que os irmãos Wright desbravaram, ou que a Ford e a General Motors produzissem o automóvel em massa, e assim por diante. Sem empreendedores, porém, poucas dessas inovações realmente ousadas que moldaram a nossa economia moderna e a nossa vida estariam disponíveis.
O desafio, portanto, para todas as economias que procuram maximizar o seu potencial de crescimento, é identificar a combinação correta de capitalismo gerencial e empreendedor. Economias nas quais empreendedores prosperam atualmente não podem se tornar complacentes. Economias dirigidas pelo Estado podem manter sua rota de crescimento acelerado, mas acabarão tendo de fazer uma transição para uma mistura compatível das duas outras formas de “capitalismo bom”, se quiserem continuar com seu crescimento veloz.
Índia e China, cada qual à sua maneira, já estão se movimentando nesta direção. O desafio mais penoso será que economias atoladas no capitalismo oligárquico concretizem uma transição semelhante. Poderá exigir nada menos que uma revolução - idealmente pacífica, claro - para se substituir as elites que atualmente dominam essas economias e sociedades e para as quais o crescimento não é o objetivo central.
William Baumol é livre-docente em Economia e diretor do Centro de Empreendorismo Berkeley na Universidade de Nova York.
Robert E. Litan é vice-presidente de Pesquisa e Política na Fundação Kauffman e Pesquisador Sênior nos Programas de Estudos Econômicos e Economia Global no Brookings Institution.
Carl Schramm é executivo-chefe e presidente da Fundação Kauffman e Membro da Escola de Administração de Empresas Darden na Universidade Virgínia. © Project Syndicate/Europe´s World, 2008


8 comments
Comments feed for this article
Março 13, 2008 às 1:24 pm
Guilevy
Meu amigo, só este trecho já vale o artigo:
“O desafio mais penoso será que economias atoladas no capitalismo oligárquico concretizem uma transição semelhante. Poderá exigir nada menos que uma revolução - idealmente pacífica, claro - para se substituir as elites que atualmente dominam essas economias e sociedades e para as quais o crescimento não é o objetivo central.”
Posso ter tirado conclusões erradas de sua crítica, mas é errado esperar empreendorismo do Estado. O papel do Estado no mix ideal de capitalismo, além do social, é de fomentar, regular e financiar uma estratégia. Como o estrategista é oligárquico, temos o que temos, somos o que somos.
Março 13, 2008 às 1:33 pm
ohermenauta
O “idealmente pacífica” é que é o “uó”.
Claro, não vejo o Estado como um bom empreendedor. Referia-me mais à ação do Estado criando as condições para o empreendedorismo. Dá para fazer isso por variados meios; nos EUA a atuação do “procurement” das forças armadas perante o complexo industrial-militar é um testemunho do uso do poder de compra do governo para financiar P&D, por exemplo.
Março 13, 2008 às 2:54 pm
Rafael M
Humm… Tenho meus comentários.
Na minha opinião é errado classificar o EUA como o exemplo do Estado atuando na economia. Entre as categorias oferecidas, os EUA estão muito mais para o exemplo do tal capitalismo empreendedor. Nada-nada, 13% do GDP dos EUA foram gerados por companhias financiadas por venture capital (que é proxy para empreendedorismo com inovação, especialmente pós-60). Imagino que se você incluir empreendedorismo lato sensu o número fica maior.
Quando o governo dos EUA intervia em vários mercados, o resultado sempre foi ineficiências. Metade do mérito na solução do stagflation nos EUA você pode dar para a desregulamentação de vários dos mercados americanos, sob a batuta do Ronald Reagan.
Concordo com você que a segunda metade da solução foram os investimentos maciços promovidos pelo governo em P&D militar, pelo mesmo Ronald Reagan. Mas pensa só: Já pensou que legal se deixassem os mercados americanos decidirem livremente no que valia a pena investir, ao invés de direcionar volumes maciços de recursos (pagos pelas velhinhas de Ohio) para pesquisa em armas?
Talvez ficassémos sem um programa guerra nas estrelas feito pela metade, mas certamente teríamos carros voadores e a cura da AIDS.
E eis o perigo do tal Capitalismo orientado pelo Estado. Há um risco tremendo de má gestão e desperdício, piorando a situação de todos. É possível que existam políticos iluminados, que façam o trabalho bem. Mas olhando sucessos e fracassos pelo mundo, eu não quero correr o risco.
Março 13, 2008 às 3:27 pm
ohermenauta
Você já ouviu falar da DARPA?
Vou lhe dizer: se os investimentos governamentais dos EUA em P&D não existissem provavelmente estaríamos em 1950.
Março 13, 2008 às 5:47 pm
argeu
Inovações são sempre apostas. Às vezes, apostas altas. Quando lembrarmos de inovações bem suceddidas, convem lembrar também daquelas que não deram certo. Recentemente tivemos o caso de uma inovação que naufragou: o HD DVD. É neste ponto que entra o orçamento militar citado pelo Hermenauta. É o colchão de ar que as grandes companhias usam para tentar as grandes inovações. Sem ele, não acredito que estaríamos tão adiantado assim. Basta ver os grandes estúdios americanos de cinema. Fazer filmes é basicamente fazer apostas de sucesso. Um grande erro pode liquidar um estúdio. Pelo que sei, o tempo de vida das grandes companhias de Hollywood não é tão grande assim como seria necessário para grandes empresas de outros ramos.
Março 13, 2008 às 6:56 pm
outro Edson
E é porque os EUA são o paraíso do capitalismo empreendedor que jamais alguém discutiria por lá a possibilidade de o governo yankee utilizar 7% do PIB americano em dinheiro público para salvar os bancos ferrados com a crise dos subprime. As velhinhas de Ohio estão salvas.
Março 14, 2008 às 12:45 pm
Rafael M
Já ouvi falar da DARPA. Fizeram muita coisa boa por lá, até mesmo coisas não necessariamente militares. Mas você é capaz de afirmar com 100% de convicção que valores equivalentes de recursos investidos pela iniciativa privada não atingiriam volumes equivalentes de inovações? Eu não sou capaz. E considerando, por exemplo, coisas como o StarShipOne, não sou capaz nem mesmo de afirmar que as inovações não seriam tão abrangentes quanto vôos espaciais e a Internet, criados inicialmente em um contexto militar.
Meu ponto não é que os investimentos governamentais dos EUA não tiveram efeito. Meu ponto é que talvez houvesse alternativas mais eficientes e menos sujeitas a distorções políticas, via iniciativa privada.
Março 14, 2008 às 12:51 pm
ohermenauta
Rafael,
Bem, você tem todo o resto do mundo, onde investimentos assim não foram feitos pelos respectivos Estados e poderiam ter sido feitos pela iniciativa privada (que não se sabe porque não os fizeram), como contraprova.
O StarShipOne é de fato um empreendimento emocionante, mas ele, tipo assim, está sobre os ombros de gigantes. E é exatamente este o papel dos gigantes, em minha opinião.