No mesmo Bom Dia Brasil que falou do problema dos turistas deportados, veio uma matéria sobre o trânsito de Brasília.
Por coincidência _ ou não _ o Guardian de hoje também tem uma reportagem sobre a capital brasileira:
“Trouble in utopia as the real Brazil spills into Niemeyer’s masterpiece
Overcrowding, traffic and crime blight futurist capital, admits legendary architect
The Museum of the Republic in Brasilia, designed by the architect Oscar Niemeyer. Photograph: Corbis
It was the spectacular creation of a modern utopia: in the heart of a continent, built from scratch with daring architecture and urban planning, arose a city like no other.
Unveiled almost half a century ago, Brasilia astonished the world. Brazil’s purpose-built capital of perfect grids and avant garde buildings exuded wonder and optimism, control and beauty.
The then president, Juscelino Kubitschek, hailed a new dawn for his country and the United Nations designated the city a world heritage site. It was a living, futurist museum.
As the 50th anniversary approaches, however, the future seems to have ambushed Brasilia. What was supposed to be a shiny citadel with huge attention to detail and organisation has in places degraded into a violent, crime-ridden sprawl of cacophonous traffic jams. The real Brazil has spilled into its utopian vision.
That is the bittersweet verdict of Oscar Niemeyer, the legendary architect who designed many of the city’s civic monuments and is a keeper of its original flame. In a rare interview Niemeyer, now 100 and still professionally active, told the Guardian that his masterpiece was out of control.
“The way Brasilia has evolved, it has problems. It should have stopped growing some time ago. Traffic is becoming more difficult, the number of inhabitants has surpassed the target, limits are being exceeded.”
Instead of 500,000 people as planners envisaged, the population has ballooned to 2.2 million, choking infrastructure and, in the rundown outskirts, ushering in scenes of gang violence more commonly associated with the favelas of Rio de Janeiro. Some areas have been nicknamed the baixada federal, invoking the baixada fluminese, Rio’s most homicidal region.
Niemeyer, considered by many the world’s greatest living architect, defends the city’s conception and his designs for landmarks such as the cathedral, national congress and palace of justice. “There is no other place like Brasilia.” But he laments the unplanned growth. “The city should call a halt.”
It is an ironic appeal given that Brasilia was built at breakneck speed. The dream of moving the capital from Rio on the Atlantic coast to the centre of the country had existed for over a century but Kubitschek pursued it with urgency. Building started in 1956 and the new capital, along with a surrounding area known as the federal district, was inaugurated just 41 months later, in April 1960.
Commercial and residential zones were meticulously demarcated. Cars zipped along wide highways past buildings that projected simplicity and modernity with fine lines and waves.
Less fine were the subsequent waves of migration and lines of jobless people. The population surge aggravated problems of access to healthcare and education.
A recent study by the University of Brasilia found that unemployment among the city’s youth had jumped from 21% in 1992 to around 40% in 2003.
Even more dramatic has been the rise in crime, especially on the outskirts.
Plinio Araujo, the mayor of Cidade Ocidental, an impoverished and gritty town in neighbouring Goias state, described the suburbs of the federal district as a “pressure cooker” which, if action was not taken, would “explode over the Alvorada Palace”, the presidential residence which is the centrepiece of Niemeyer’s creation.
Over 100 members of an elite security force were recently dispatched to the outskirts of the federal district and Goias to try to control the violence.
The country was especially shaken by the shooting of Amaury Ribeiro Junior, an investigative journalist from the Estado de Minas newspaper. He had just published a series of articles called Trafficking, Extermination and Fear, based on undercover work in violent neighbourhoods just outside the federal district in Goias. He had returned to the area to research a follow-up story on sexual violence in the so-called Entorno, an impoverished belt of around 30 towns that flanks Brazil’s capital.
A teenager with a 38mm revolver fired three shots at the 44-year-old reporter as he sat in a bar waiting for a contact, hitting him once. It was never clear whether Ribeiro, who survived, was targeted because of his work or if he was the victim or a hold-up gone wrong.
“The place where I was shot is 15km from where the president sits in his palace,” said Ribeiro. “It really is like the wild west; and what shocked me most was that so close to the capital you have such barbarity.”
He said the high levels of violence were the result of huge migration to the region and an almost total absence of social services or policing. “The parents go to work in the capital and their kids are abandoned and end up being co-opted by drug traffickers.”
But despite the disappointments, Brasilia’s utopian dream is not completely dead. Residents say they never tire of gazing at the city centre’s sublime, otherworldly architecture. Parents say it remains a better, safer place for children than Rio or Sao Paulo.
And Niemeyer, the man who made the dream concrete, speaks of the city like the proud father of a wayward but cherished offspring. In his Rio studio overlooking Ipanema beach he displays the design of a tower with two viewing platforms which he has been commissioned to build in Brasilia.
He grows animated as he describes it soaring over the skyline, the skyline he built half a lifetime ago and still adores.
“There is no other place like it. It is monumental. The curves of those buildings are those of a beautiful woman.”



33 comments
Comments feed for this article
Março 12, 2008 às 11:20 pm
Barnabé
“The way Brasilia has evolved, it has problems. It should have stopped growing some time ago.”
O velho comuna mostra que idade e sabedoria não são sinônimos: ele não consegue admitir que errou no planejamento e ainda diz que a cidade é que não deveria ter crescido tanto! Ora, toda cidade cresce e ele deveria ter incluído essa variável em seu projeto. Mas, naturalmente, a mente soviética é incapaz de pensar em termos dinâmicos: para essa gente a realidade precisa se adaptar ao GOSPLAN e pronto. Se a demanda por espaço supera a oferta, é só baixar um decreto proibindo o crescimento da cidade e tudo resolvido.
Como castigo pela sua “obra”, Niemeyer deveria ser condenado a viver em Brasília. Sem carro. E numa daquelas kits comerciais da Asa Norte.
Março 12, 2008 às 11:29 pm
dra
pois, pra mim, Brasília sempre esteve mais pra distopia do q pra utopia.
eu sempre a vi como uma daquelas cidades ficcionais futurísticas acépticas, onde parece q ninguém mora, como a daquele filme, Gattaca…
Nada além de longos corredores vazios, cercados de concreto e vidro, onde os únicos passantes são burocratas de terno e gravatas pretos e camisa branca.
mas parece q a “realidade brasileira” tá fazendo a cidade passar de uma distopia desse tipo para uma outra, do tipo Blade Runner.
acho q é até melhor assim!
Março 13, 2008 às 12:46 am
Me
Eu imagino como se faz uma cidade parar de crescer. Sera que o mumia queria uma cerca em volta da cidade? Quem sabe poderiam ate proibir quem esta dentro de sair, sabe como eh, so para estabilizar os numeros. Teriam tambem que estabelecer uma politica de 1 filho por familia…
Esse pessoal nao aprende.
Março 13, 2008 às 2:11 am
ohermenauta
Posso estar delirando, mas acho que se cometem alguns equívocos aqui. A começar por este parágrafo da reportagem:
“Instead of 500,000 people as planners envisaged, the population has ballooned to 2.2 million, choking infrastructure and, in the rundown outskirts, ushering in scenes of gang violence more commonly associated with the favelas of Rio de Janeiro.”
Sadly, No! O limite previsto de 500.000 pessoas é para o Plano Piloto. É o que está escrito em uma carta do Diretor do Departamento de Urbanismo e Arquitetura da NOVACAP complementando o Edital do Concurso Nacional do Plano Piloto da Nova Capital do Brasil:
“Ao Sr. Dr. Ary Garcia Roza DD. Presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil o Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Companhia Urbanizadora responde às consultas formuladas, até esta data, pelos concorrentes ao Plano Piloto da Nova Capital:
(…)
8 - Densidade
Provisão para 500.000 habitantes, no máximo.”
Quem tem 2,4 milhões de habitantes, hoje, é o Distrito Federal, ou seja, Plano Piloto + Cidades Satélites. O Plano Piloto ainda está confortavelmente dentro do limite definido no edital: segundo dados do TRE, em 2007 era de 204.212 alminhas.
A meu ver nem Lúcio Costa nem Niemeyer têm culpa pelo que ocorre agora à capital, já que no Edital não se previa soluções para as cidades satélites. Estas foram totalmente improvisadas, assim como o transporte público entre elas e entre elas e o Plano Piloto. Eis a transcrição de como o chefe da NOVACAP descreve a “solução” para o problema dos trabalhadores que invadiam áreas vazias do Plano Piloto e o surgimento de Taguatinga, a maior cidade satélite:
“O então diretor da NOVACAP, Ernesto Silva assumiu a tarefa de solucionar o problema. Diz que:
“[...] Juscelino ia jantar no Núcleo Bandeirante, no restaurante, doutor Israel (Israel Pinheiro, primeiro governador) mandou que fosse lá. Foi quando eu fui lá ver o quê que era… quando subi no caixote para falar com eles… dizer que estava tudo programado, que a gente ia ter um lugar para eles, nós íamos transferir todo mundo, que no dia seguinte, que era um domingo, eu ia lá com o doutor Mário Meireles, que era o prefeito do Núcleo Bandeirante[...] foi um arquiteto que fez a planta de Taguatinga que foi esse Paulo Hungria sim [,,,]”
O maior problema de Brasília hoje é a total carência em termos de transporte público, que, em conjunto com a especulação imobiliária crescente contribui para a formação de gargalos no trânsito quase insuperáveis.
Março 13, 2008 às 10:41 am
Barnabé
Ok, os responsáveis pelo edital também são culpados por este desastre urbanístico e arquitetônico em que vivemos. Mas isso não exime o autor do projeto, até pq ele é o primeiro a defender que o plano, conforme o edital, estava correto, e que o problema é a realidade que insiste em fugir ao GOSPLAN (”Brasília deveria ter parado de crescer” - dá pra ser mais ridículo que isso??)
Quanto ao número, a limitação de andares imposta aos prédios do Plano Piloto, bem como o excessivo espaço inaproveitado entre eles, reduz a oferta de imóveis e conseqüentemente eleva o preço, fazendo com apenas 204.212 alminhas estejam dispostas a ou possam arcar com os custos de viver no centro. Ou você acredita que as alminhas lá de Ceilândia não moram no Plano porque, sei lá, não o acham assim tão bonito? As mentes soviéticas que projetaram esta birosca, porém, não raciocinavam em termos de oferta e demanda e, supondo um mundo idilicamente igualitário, imaginaram que as classes C e D habitariam as 400 Norte, felizes e espaçosas.
Março 13, 2008 às 11:40 am
ohermenauta
Ué,
Mas qual o problema? As autoridades constituídas _ isto é, o governo do Plano Piloto _ é quem tinha que ter dado as soluções para o problema criado pelo Edital. O arquiteto foi contratado apenas para projetar o Plano Piloto.
E realmente não entendo sua bronca com as restrições de gabarito, etc. Ué, agora é você quem “sovieticamente” quer impedir os preços altos dos imóveis do Plano, aumentando a oferta? Mas mire-se em Águas Claras então, onde a liberação do gabarito criou o protótipo do inferno. A boa e verdadeira razão pela qual todo mundo quer morar no Plano é o fato da atividade econômica estar concentrada ali e o transporte público não funcionar. Em várias grandes megalópoles do mundo as pessoas preferem mesmo é a qualidade de vida do subúrbio. Aqui a qualidade de vida é contada no número de minutos que você leva para ir ao trabalho, graças à desídia de quem devia planejar e construir o transporte público do DF.
Março 13, 2008 às 12:05 pm
Barnabé
“Mas qual o problema? As autoridades constituídas _ isto é, o governo do Plano Piloto _ é quem tinha que ter dado as soluções para o problema criado pelo Edital. O arquiteto foi contratado apenas para projetar o Plano Piloto.”
O problema é o arquiteto viver num mundo imaginário em que é possível controlar o crescimento das gentes e das coisas e onde seu projeto está ok e o mundo é que precisa ser consertado. Se ele desse uma entrevista do tipo “o projeto é uma porcaria, mas foi assim que me mandaram fazer”, fine by me.
“Ué, agora é você quem “sovieticamente” quer impedir os preços altos dos imóveis do Plano, aumentando a oferta?”
Não, é a legislação em vigor que, ao limitar a oferta, sovieticamente mantém os preços altos. Eu quero é liberar a iniciativa privada desse grilhão. Ademais, o problema em Águas Claras não é a liberação do gabarito, mas as deficiências do sistema de transporte do DF, como vc bem lembrou. Dá pra ter edifícios de 100 andares, desde que o sistema de transporte seja adequado.
Março 13, 2008 às 12:31 pm
ohermenauta
Engraçado. Vivi por um tempo na Virgínia, nos EUA. Eles lá têm uma legislação que proíbe _ repito, PROÍBE _ que os apartamenos tenham mais de x moradores por cômodo. Planejamento urbano, Barnabé, não é sinônimo de socialismo. Transformar o mundo em um pardieiro também não precisa ser sinônimo de capitalismo.
Março 13, 2008 às 1:02 pm
Márcia W.
Hermê,
testimonial alert!
Eu que cresci em Brasília, não canso de me espantar com os relatos da deficiência dos transportes coletivos. E culturalmente, sei que não é culpa do Niemeyer/Costa, a inauguração do centro Gilberto Salomão (ainda existe?) com sala de cinema foi um mega agito nas nossas vidinhas. Nem sei quanto tivemos que esperar para o cinema seguinte, o Karim, ser inaugurado. Sobre a existência de teatros, salas de música e quejandos a gente ouvia nossos pais falarem e soava tipo fábula: Somewhere over the rainbow….
Março 13, 2008 às 3:45 pm
Barnabé
O fato de um país x adotar tal ou qual política (limitações ao uso do espaço urbano, tarifas de importação sobre a laranja, ensino do criacionismo nas escolas ou qualquer outra coisa) não é suficiente para conferir racionalidade a essa política. Quando a conversa cai no “ah, mas os EUA também fazem” é pq realmente os argumentos estão se esgotando.
Março 13, 2008 às 3:59 pm
Barnabé
De todo modo, não tenho problema com a idéia de planejamento urbano. Meu problema é com o planejamento urbano tal como feito em Brasília.
Março 13, 2008 às 4:45 pm
ohermenauta
Barnabé,
Você tem razão, eis porque também acho meio estranho seu uso intensivo do epíteto “soviético” _ talvez alguma coisa de boa os caras tenham feito, ou não? Nem um sputnikizinho?
Se você acha que fazer planejamento urbano é soltar o gabarito, então me explique uma coisa: como é que um planejador urbano saberá como dimensionar coisas básicas como vazão de água e esgoto, vazão de veículos (condicionando a largura das ruas), áreas verdes, etc., se uma informação como o gabarito _ que condiciona, obviamente, o número de pessoas, veículos, xixi, fezes, etc. _ ficará a critério dos incorporadores que construirão os prédios, obviamente DEPOIS do dimensionamento dos pequenos detalhes de que falei antes?
Não que thought experiments tenham que ser realizados para demonstrar o quão desastrosa é essa idéia. Eu morei muitos anos de minha vida em Copacabana, um bairro que se apresenta o maior “recall” para estrangeiros, é também o que mais os decepciona. O que aconteceu em Copacabana? Após uma década inteira de laissez faire em matéria de gabarito, criando unidades habitacionais impossíveis cujos marcos foram dois hotéis fincados na orla - o Meridien, em 75, com 496 apartamentos, e o Othon, em 76, com 589 apartamentos - o que temos é um bairro degradado, cujo tecido urbanístico, curiosamente, o tornou o paraíso do turismo sexual: hotéis grandes, de massa, baratos para os turistas “médios” do Primeiro Mundo e centenas de edifícios com muitos andares e dezenas de quitinetes por andar, propícios à formação de “repúblicas” de prostitutas, traficantes, pequenos ladrões, etc. Tudo isso com os cumprimentos de Sergio Dourado, célebre especulador imobiliário da época.
Março 13, 2008 às 5:35 pm
Barnabé
Pela sua lógica, depreendo, o tamanho dos prédios deve ser imutável: se a infraestrutura foi pensada para acomodar x pessoas naquela área, então, bem, as pessoas que tenham menos filhos e a economia que não se atreva a crescer além do disposto na legislação vigente. Imagine então se, na Nova Iorque do século XIX, algum burocrata houvesse limitado os edifícios da cidade a seis andares. De novo: não sou contra ao planejamento urbano em si, apenas não acredito na clarividência do administrador público (e menos ainda na do Niemeyer).
Março 13, 2008 às 6:02 pm
Barnabé
Já que estamos no terreno do “se os EUA fazem, então é bom”, o Department of Buildings de NY permite que os edifícios residenciais tenham qualquer número de andares e qualquer altura (desde que na construção não sejam utilizados determinados materiais inflamáveis; os construction codes da cidade estão disponíveis em http://www.nyc.gov/html/dob/html/model/construction_code.shtml). Aparentemente, em NY os planejadores urbanos se viram muito bem sem Niemeyer.
Março 13, 2008 às 6:02 pm
ohermenauta
Entre Paris e NY, eu fico com Paris, sem dúvida nenhuma. Aliás, fico até com Washington, D. C. Algum problema?
Março 13, 2008 às 6:14 pm
ohermenauta
“Pela sua lógica, depreendo, o tamanho dos prédios deve ser imutável: se a infraestrutura foi pensada para acomodar x pessoas naquela área, então, bem, as pessoas que tenham menos filhos e a economia que não se atreva a crescer além do disposto na legislação vigente.”
E…não seria um pouco mais fácil, digamos, criar novos centros populacionais do que continuar saturando uma mesma área indefinidamente? Até porque há limites físicos para o que pode ser feito em determinado lugar, e além disso, há um preço atachado nesses limites. Particularmente, aumentar o gabarito de Brasília para 10 ou 15 andares seria assassinar a cidade. Já existem quadras onde os blocos, embora mantendo o gabarito de 6 andares, são tão densamente posicionados que o sujeito não pode ir à janela sem ver o vizinho da frente fazendo xixi no banheiro.
Além disso, a superpopulação de Brasília não é, como você bem sabe, fruto de um crescimento econômico virtuoso. É fruto de um problema mais complexo que tem a ver com a atração indiscriminada de grandes contingentes populacionais por um político com intuitos eleitoreiros, além, é claro, de ser também o resultado de um padrão de desenvolvimento que não contempla a contento um objetivo de equalização das disparidades regionais, gerando grandes fluxos migratórios tais como aqueles que criaram as grandes periferias miseráveis e violentas de Rio e São Paulo. Na boa, esse é o produto do laissez faire nessa área, meu caro.
Março 13, 2008 às 6:15 pm
Barnabé
Dado que das três eu só conheço Paris, não tenho como opinar. Mas conto com sua ajuda para, num futuro próximo, passar uma temporada em Washington, D.C.
Março 13, 2008 às 6:24 pm
ohermenauta
ehehehe, conte comigo.
Fora isso, deixe de ser preguiçoso e clique no link do comentário, pô!
Março 13, 2008 às 6:52 pm
Barnabé
“existem quadras onde os blocos, embora mantendo o gabarito de 6 andares, são tão densamente posicionados que o sujeito não pode ir à janela sem ver o vizinho da frente fazendo xixi no banheiro.”
Pois é. Viva Niemeyer.
“Na boa, esse é o produto do laissez faire nessa área, meu caro.”
Um populista rasteiro resolve endividar e inflacionar o país para construir uma capital futurista no meio do nada. Um arquiteto comunista planeja uma cidade inconsistente com o mundo real. Outro populista rasteiro oferece lotes para migrantes como forma de inchar sua base de eleitores. E a culpa é do laissez faire? Então tá.
Quanto ao ranking, NY está atrás de Washington e Paris, mas, diferente de Brasília, ao menos aparece ali. Mas decerto esse ranking é fruto do preconceito da zelite contra a obra de Niemeyer só porque o véinho é comunista.
Março 13, 2008 às 9:35 pm
ohermenauta
Festival de enganos, pal.
1) As entrequadras a que me refiro são justamente as mais novas. A disposição dos prédios nas quadras não é prevista no projeto do Plano Piloto, e audazes construtores como Paulo Otávio estão dando um jeito de empacotá-los de forma a caber mais gente.
2) Por acaso alguém além da pura necessidade tangeu os milhões de migrantes que foram para as periferias de Rio, São Paulo e agora Brasília? Isso acontece por causa do funcionamento livre e desimpedido do mercado de trabalho, na ausência de políticas que gerem emprego e renda onde as pessoas já moram, ué. Puro laissez faire, é ajuste pelo mercado.
3) Não, é porque obviamente ninguém do Primeiro Mundo considera morar em uma cidade do terceiro mundo, por melhor que ela seja. Se Brasília fosse nos EUA ou na Suíça te garanto que o resultado seria bem diferente.
Março 13, 2008 às 10:56 pm
Barnabé
“Isso acontece por causa do funcionamento livre e desimpedido do mercado de trabalho, na ausência de políticas que gerem emprego e renda onde as pessoas já moram, ué. Puro laissez faire, é ajuste pelo mercado.”
As “políticas que geram emprego e renda” são educação, infra-estrutura, garantia da propriedade e enforcement dos contratos. Puro laissez faire, inclusive na visão smithiana da coisa. E nada disso é encontrável nos grotões de onde saem os moradores de Ceilândia e Capão Redondo.
Março 13, 2008 às 11:04 pm
Cássio
Barnabé, morei alguns anos de minha vida em Porto Alegre, que conta com um Plano Diretor criado em 1954 e revisto em 1988. Toda a cidade está incluída no plano. Os bairros são divididos e nomeados, e o destino principal de cada um deles está definido (predominantemente residencial urbano, bairro rural, zona industrial, zona comercial). O gabarito dos prédios está previsto para toda a cidade, e varia de região para região. O recuo é obrigatório nas construções, assim como é a arborização das vias públicas. Existe até a obrigação da existência de uma obra de arte exposta ao público em cada unidade, comercial ou residencial, com mais de 3000 m2 construídos.
Isso não faz dos gaúchos comunistas, ou estatistas, ou qualquer coisa que o valha. E vou te dizer uma coisa: não me fez mal nenhum morar em uma cidade onde se pode enxergar o horizonte, os prédios não estão debruçados na rua, há árvores nas calçadas e o trânsito flui. Três carros parados em um sinal de trânsito em Porto Alegre é congestionamento, os paulistas que vão pra lá riem sozinhos. Se existe um “ismo” atrás disso, eu diria que é civismo, ou habitabilidade.
Quando as incorporadoras de imóveis elaboram um projeto, elas estão preocupadas com custo por unidade. O custo sobe a medida em que se oferecem mais elementos que melhorem a habitabilidade - aumento de áreas comuns, jardinagem, existência de recuo, varandas, garagem. Tudo “come” espaço. Das duas uma: ou a unidade mantém o tamanho e se diminui o número de unidades disponíveis, ou se mantém o número de unidades, diminuindo o tamanho. O preço, por razões óbvias, não pode ser reduzido ou aumentado indefinidamente (ou não paga os custos, ou ninguém compra).
Espontaneamente, as incorporadoras não vão oferecer unidades com melhores características a preço acessível (=preço pelo qual o comprador está disposto a pagar). Trocando em miúdos, ninguém vai vender em Copacabana um prédio como os do Leblon, a preços de Copacabana. Aí que entra o poder público, obrigando a existência dos elementos acima e definido o gabarito do bairro. Não por acaso, o preço dos imóveis em Porto Alegre, que tem imensos espaços desocupados até hoje, é semelhante aos do Rio de Janeiro, em que a carência de espaços é problema antigo e a especulação imobiliária vem desde o Império.
Já sobre Brasília eu não posso te dar uma opinião. Posso, sim, dizer que há cinco anos eu tive que escolher, numa sexta-feira, se na segunda eu me mudava para Brasília, ou se mudava para o Rio.
Moro em Botafogo desde então.
Março 14, 2008 às 9:47 am
Barnabé
“Espontaneamente, as incorporadoras não vão oferecer unidades com melhores características a preço acessível (=preço pelo qual o comprador está disposto a pagar). [...] Aí que entra o poder público, obrigando a existência dos elementos acima e definido o gabarito do bairro.”
Entendi. Então o estado tem que entrar no jogo para assegurar “preços acessíveis”. E isso não é estatismo ou comunismo.
Bom, não sei que “ismo” é esse, mas certamente não é capitalismo.
Março 14, 2008 às 9:56 am
Cássio
Barnabé, você tem certeza que você leu o que eu escrevi ou fez só um copy and paste para não me deixar sem resposta?
Ninguém falou em assegurar preços acessíveis. O que é assegurado é a qualidade do empreendimento em relação ao projeto urbanístico. O preço, cada um faz o seu.
Março 14, 2008 às 10:49 am
Barnabé
Ninguém falou em assegurar preços acessíveis? Então alguém está escrevendo comentários em seu nome, pq, bem, isso está lá no seu texto (dá um CTRL+F aí que vc acha).
De novo (é a terceira vez): não sou contra a idéia de planejamento urbano. E não o associo automaticamente a comunismo ou estatismo. Você está vendo “antolhos ideológicos” (para usar uma expressão ao gosto do autor do blog) onde eles não existem. Meu ponto é: o planejamento urbano, tal como feito em Brasília, é uma porcaria e, sim, é fruto de um ideário comunista.
Pela sua descrição, porém, o planejamento urbano de Porto Alegre também tem seus problemas. Obrigar a exposição de obras de arte em unidades com mais de 3000 m² construídos? Ah, fala sério! Quem quiser que compre obras de arte e as aprecie individualmente. Um dos problemas com os planejadores comunas é que eles tentam impor à coletividade os custos de suas preferências estéticas pessoais. Em Brasília, por exemplo, há quem defenda a limitação do gabarito argumentando que “ah, mas se os prédios fossem altos não teríamos essa vista maravilhosa”. E quem não está nem aí para essa tal “vista maravilhosa”? Tem que pagar R$ 200 paus por um apê velho e vagabundo só por causa da vista (já que a limitação do gabarito reduz a oferta e aumenta os preços)? Aqui em Brasília, sim. E esse é o cerne do problema: cada regra de planejamento urbano tem custos, mas esses custos são freqüentemente ignorados pelos planejadores, que - ao menos em Brasília (e também Porto Alegre, pelo que vc me diz) - parecem viver num universo paralelo onde as leis da economia não se aplicam.
Março 14, 2008 às 11:19 am
Cássio
Vou (t)repetir, para ficar claro: ninguém falou em assegurar preços acessíveis. Cada um faz seu preço.
Você me diz que o projeto de Brasília é comunista e sou eu que estou associando projetos urbanísticos a “antolhos ideológicos”? C’mon.
O urbanista que projetou Brasília foi Lucio Costa. Niemeyer envolveu-se com o projeto dos prédios públicos mais célebres. Por sinal, Lucio Costa tem outro projeto, que foi laboratório do que seria Brasília, aqui no Rio. O nome é Parque Guinle. Quando você estiver com mais tempo, dê uma passada por lá e entenda o que Brasília poderia ter sido e não foi.
O Plano Diretor tem problemas e foi rediscutido na Câmara Municipal em 1988. O mercado exercia uma pressão bastante grande para a mudança do gabarito de bairros residenciais formados basicamente por casas e prédios até 4 andares. O gabarito foi alterado de forma a se construirem prédios mais altos, que foram vendidos a preços bastante elevados por se tratar de zonas valorizadas. Até aí tudo muito bom, mas com um detalhe: a largura das ruas ficou a mesma. Alargar uma via num bairro residencial é caro e demorado, envolve desapropriar imóveis e gerar dividendos políticos negativos.
Hoje a área nobre de Porto Alegre está hoje sujeita a um trânsito maior do que o planejado. Ocorre então, nos horários de movimento, o curioso “engarrafamento de bairro”, problema que os cariocas que moram na Zona Sul conhecem muito bem. Nem vou mencionar que a diminuição dos espaços de terra descobertos favoreceu o acúmulo de água na zona e os alagamentos que surgiram depois. Parece que o conjunto de normas que você pomposmente chama de “As Leis da Economia” não deu muita bola para o bem-estar dos contrubuintes.
Março 14, 2008 às 11:51 am
Barnabé
“Por sinal, Lucio Costa tem outro projeto, que foi laboratório do que seria Brasília, aqui no Rio. O nome é Parque Guinle. Quando você estiver com mais tempo, dê uma passada por lá e entenda o que Brasília poderia ter sido e não foi.”
Desculpe, mas só vou ao Rio quando minhas obrigações profissionais assim o exigem. É um lugar maldito e sem futuro que, junto com a Amazônia e o Nordeste, já deveria ter sido vendido para os americanos. (mas eu gosto de Porto Alegre, mind you).
“Hoje a área nobre de Porto Alegre está hoje sujeita a um trânsito maior do que o planejado. Ocorre então, nos horários de movimento, o curioso ‘engarrafamento de bairro’,”
Engarrafamentos se resolvem com transporte público decente; e alagamentos, com um sistema de drenagem eficiente. Ambos são falhas de governo e não de mercado.
Março 14, 2008 às 1:01 pm
ohermenauta
Entendi, Barnabé. O negócio é deixar a iniciativa privada construir prédios de 100 andares, um do lado do outro, servidos por ruas que dão vazão apenas a 5% do movimento, e então o Estado que se exploda para resolver o problema…particularmente, usando o dinheiro dos impostos, inclusive os pagos por quem não mora ali.
Por outro lado, esse choro de pessoas que gostariam de viver no Plano Piloto mas acham isso muito caro talvez se deva ao fato de que elas são incompetentes do ponto de vista “do mercado”, pois deveriam capacitar-se e ganhar mais para poder comprar um apartamento lá. Esse outro lado da eficiente disciplina da economia de mercado parece escapar-lhe…
Março 14, 2008 às 3:54 pm
Barnabé
O metrô, até onde sei, vai por baixo da terra e independe do espaço disponível na superfície. Fico de todo modo comovido com sua preocupação com o bem-estar dos que preferem o automóvel ao transporte coletivo (e eu que me achava liberal e individualista).
Quanto ao Plano, os imóveis seriam affordable se os prédios pudessem ser mais altos. O problema não é falta de renda, mas a restrição legal à oferta e a conseqüente manutenção dos preços em patamares artificialmente elevados. E, note, esse preço mais alto penaliza a todos, tanto os que não conseguem comprar imóveis no Plano quanto os que o fazem (os quais, não fosse a restrição legal, pagariam preços menores).
Março 14, 2008 às 4:53 pm
ohermenauta
O metrô não é o único tipo de transporte público disponível, embora seja o mais caro. Mas se você me mostrar a conta, demonstrando que os pobrezinhos que moram no Gama não vão ser forçados a pagar via impostos o bem estar subterrâneo da casta que quer morar em prédios de 100 andares no plano piloto, eu posso mudar de idéia. Por enquanto continuo achando que desbravar novas regiões sai mais em conta, como já foi feito com o Sudoeste e agora irá ser feito com o Noroeste. Repito: se você quer desfrutar do duvidoso privilégio de morar no Plano, fique rico o suficiente para comprar o que a especulação pede _ não exija que o morador do Gama vá bancar o seu capricho.
Felizmente, sabemos todos muito bem que o problema de Brasília é a especulação imobiliária, que planeja a ocupação urbana de forma estratégica para maximizar os lucros dos incorporadores. Não é por outro motivo que o Noroeste está saindo beeem depois dos caras já terem feito a festa no buraco que é Águas Claras.
Março 14, 2008 às 5:52 pm
Barnabé
“o bem estar subterrâneo da casta que quer morar em prédios de 100 andares no plano piloto”
Com prédios de 100 andares os apartamentos seriam mais baratos e o resultado seria justamente a “popularização” do Plano, e não a criação de castas.
“se você quer desfrutar do duvidoso privilégio de morar no Plano, fique rico o suficiente para comprar o que a especulação pede _ não exija que o morador do Gama vá bancar o seu capricho.”
“A especulação” (essa entidade terrível tão temida pela esquerda) não “pede” coisa alguma: é a limitação do gabarito que faz os preços serem altos.
De todo modo, ficar rico não resolveria meu problema, pois - como escrevi no comentário anterior -, ainda assim eu teria que pagar um preço maior do que o natural em função da limitação do gabarito.
Março 14, 2008 às 9:44 pm
ohermenauta
“Com prédios de 100 andares os apartamentos seriam mais baratos e o resultado seria justamente a “popularização” do Plano, e não a criação de castas.”
Claro, claro. Exatamente como a ilha de Manhattan, um dos lugares mais popularizados do mundo.
“A especulação” (essa entidade terrível tão temida pela esquerda) não “pede” coisa alguma: é a limitação do gabarito que faz os preços serem altos.
Não, o que faz os preços serem altos é a falta de opções de moradia. Uma das razões dessa falta, é claro, é o fato de existirem gabaritos. Por essa razão devemos dar graças a Deus. Outra razão é o fato de não existirem alternativas fora do plano. ESSA razão é que é efeito da especulação, que vai administrando a oferta de forma a extrair o máximo de lucro do negócio imobiliário. Não é por outra razão, aliás, que até hoje os condomínios têm que lutar pela sua regularização: porque ela não interessa aos grandes construtores como por exemplo, o vice-governador…
Março 26, 2008 às 3:09 pm
Brasília, ainda na berlinda «
[...] de ter que apresentar seus projetos para avaliação do Departamento de Trânsito? Burocratazinho soviético. [...]