Prezados 4,5 leitores, hoje eu realmente terei que dar a mão à palmatória. Tive a prova cabal de que os órgãos de mídia brasileiros foram dominados pelo Foro de São Paulo _ a começar pela própria Rede Globo, o maior e mais popular de todos eles.

Hoje de manhã eu via o Bom Dia Brasil quando apareceu o Alexandre Garcia em uma reportagem sobre a questão da crise entre Brasil e Espanha no tocante à deportação de turistas. Eis a transcrição do texto narrado por Garcia:

Nitidamente, o que se vê no caso dos turistas espanhóis deportados é uma represália, a aplicação do princípio da reciprocidade. Mas há outras saídas para o mal-estar.

O interessante é que isso não acontece com a Inglaterra, que no ano passado deportou cinco mil brasileiros, dois mil paquistaneses e dois mil nigerianos. Nós somos campeões, embora sejamos uma das comunidades minoritárias na Inglaterra.

A Espanha deportou três mil. No entanto, a reação não é a mesma. Certamente, não é porque não foi a rainha da Inglaterra que mandou Chávez se calar. Deve ter outros motivos. É preciso enfrentar os motivos da sua base.

Por exemplo, já estão mudando a rota da prostituição. Outro dia, em um avião para Paris, havia quase duas dúzias de mulheres brasileiras que explicaram que, como as autoridades estão sendo mais rígidas em Madri, elas estão indo agora para o Aeroporto Charles de Gaulles, em Paris, onde um microônibus as aguarda para entrarem na Espanha via terrestre, já tendo ingressado na União Européia.

O Jornal Nacional mostrou a condenação de um agenciador de mulheres espanhol em Goiás. E mostrou na semana passada a prisão de outro espanhol, também em Goiás, levando três mulheres para o avião. E sabe-se que algumas casas noturnas do Nordeste, na verdade, são centros de recrutamento de mulheres.

Talvez se o Brasil combater esse tipo de rota, combater o tráfico aqui dentro, prendendo essas pessoas e também impedindo a entrada de turistas sexuais, isso vai tornar a vida mais fácil de turistas estudantes que chegam ao exterior, já que vai melhorar o nome do Brasil.

Então vamos lá.

Garcia parte do pressuposto que a ação espanhola é justificada, já que nós não seguramos nossas prostitutas aqui no Brasil. Então sugere que ao invés de bloquearmos a entrada de inocentes turistas espanhóis, transportemos o custo da empreitada para dentro de nossas fronteiras, fiscalizando a saída de nossas prostitutas e prendendo os empresários do sexo que fazem a negociação.

Mas:

a) os empresários do sexo, como ele mesmo disse, são afinal espanhóis que entraram no Brasil. Portanto, a idéia de combater o negócio “na base”, bloqueando a entrada deles aqui em primeiro lugar, não parece tão idiota assim;

b) consigo imaginar alguns países que conseguiriam implementar uma política exitosa de impedir a saída de prostitutas e a entrada de turistas sexuais. Seus nomes são Cuba e Coréia do Norte. OK, todos nós conhecemos o formulário de entrada no país adotado pelos EUA, que pergunta se você está a fim de praticar um genocídio básico na América (o onze de setembro mostrou que o questionário é relativamente ineficaz). Suspeito que perguntar a todas as milhares de moças que saem todo dia do Brasil se elas são prostitutas, ou aos milhares de rapazes que entram todo dia no Brasil se eles pretendem fazer turismo sexual, seria uma estratégia pouco exitosa _ portanto a única maneira de implementar a idéia com 100% de sucesso seria proibir todo mundo de sair e todo mundo de entrar.

O mais engraçado mesmo é que o Alexandre Garcia foi porta voz da Presidência da República entre 1979 e 1980. Nada mais nada menos do que do Presidente Figueiredo. E foi demitido após 18 meses no cargo. O motivo? Diz a Wikipedia:

Foi demitido a bem da moral, depois de posar nu para a revista, “Ele e Ela,” deitado placidamente em uma cama, onde dizia, candidamente, ser ali o lugar em que “abateria” suas “lebres.

Em uma entrevista de agosto de 2006, ele confirma, é claro que culpando as “forças ocultas” da intriga palaciana:

Marcone Formiga - Conta-se que o Said Farhat tinha ciúme de você e por isso provocou a sua demissão. Como foi esse episódio?
Alexandre Garcia - Eu havia sido entrevistado para a “Playboy” e aí o Flavinho Cavalcante, na época da Bloch, disse que a “Ele & Ela” também queria uma entrevista. Só que maior, com fotos. Fui perguntar para o meu guru, o ministro Golbery, que respondeu: “Pode, sim. Vamos, em breve, tirar o Farhat. Vamos extinguir a Secretaria de Comunicação Social e queremos que você fique como secretário de Imprensa. Nada como dar uma entrevista para uma revista masculina para projetar mais o seu nome, para virar depois secretário de Imprensa”. Dei a entrevista, revisei, praticamente copidesquei. Então aquilo que está lá é meu mesmo. O Flavinho me trouxe o primeiro exemplar que entreguei para o Figueiredo ler. O Figueiredo leu a bordo de um Búfalo em uma viagem a Pindamonhangaba. Até aconteceu uma coisa engraçada…

Marcone Formiga - O que foi? Ah, conta…
Alexandre Garcia - Estourou um cano do sistema hidráulico do avião sujando as calças do presidente… Quando ele foi trocar as calças olhou para mim e disse: “É perigoso tirar as calças na sua frente”! (risos) Foi a única observação que ele me fez a respeito da entrevista.

Marcone Formiga - Mas, voltando ao Farhat, seu algoz…
Alexandre Garcia - O Farhat tinha respondido uma carta da mulher de um goleiro do Atlético, que usou palavras de baixo calão para se referir ao presidente. Respondeu devolvendo as palavras de baixo calão. Aí a revista “Veja” pegou essa carta do Farhat e uma foto minha na entrevista, em que eu estava na cama, de bermuda. O fotógrafo me cobriu com o lençol até o tórax e tirou as fotos. A “Veja” pegou essa foto e a carta e lançou na capa: “Vulgaridade palaciana: enquanto o ministro da Comunicação Social usa palavras de baixo calão em carta, o sub-secretário de Imprensa nacional se deixa fotografar sob os lençóis em uma revista masculina”. O Farhat pegou aquilo e deve ter pensado: “Para tirar do meu eu vou botar no dele”. Então me chamou - e fiquei sabendo anos depois que ele foi pegar o sinal verde com o Medeiros e não com o Figueiredo ou Golbery - e veio, com toda força, com uma carta na mão para que eu assinasse pedindo minha demissão. O Golbery não foi porque estava em casa doente, mas me ligou uma hora depois: “Volta que vamos demitir esse turquinho agora!”. Eu respondi: “Desculpe, ministro. Eu não vou voltar porque não quero criar crise no governo”. O Farhat saiu uns 20, 30 dias depois…

Pois é, é o antigo “abatedor de lebres” que agora dá conselhos ao governo sobre como tratar os problemas do turismo sexual (”receptivo” e “para exportação”) na “sua base”. Acho sintomático que “a base” com que ele se preocupe seja a da repressão pura e simples, sem sequer se perguntar porque será que o Brasil se tornou um exportador líquido de prostitutas, e o que poderia ser feito para minorar este problema, “na base”.