E no blog do Ordem Unida Livre, Pedro Sette Câmara destrói a idéia de direito autoral:
“Ainda existe, como no caso do livro escrito por Polzonoff, o problema da citação de poemas. Além de não ter gostado do que leu, o responsável pela obra de Bandeira reclamou de três poemas citados sem permissão. Ainda que eu saiba que a legislação brasileira (e até a americana) estabelece que é preciso pedir permissão, não posso deixar de perguntar: como alguém fica mais pobre por ver um poema de seu antepassado reproduzido sem permissão legal? O poema não é perdido. O poema não é como um bolo que, se for comido, deixa de existir. Ele pode ser reproduzido indefinidamente. E, se o objetivo declarado é “não deixar a obra morrer”, é melhor que falem dela de algum jeito do que não falarem de jeito nenhum porque aquele algum jeito não agrada o detentor dos direitos.“
Sadly, No!:
“Art. 33. Ninguém pode reproduzir obra que não pertença ao domínio público, a pretexto de anotá-la, comentá-la ou melhorá-la, sem permissão do autor.
Parágrafo único. Os comentários ou anotações poderão ser publicados separadamente.”
(Lei no 9.610, de 19 de fevereiro de 1998, que “Altera, atualiza e consolida a legislação sobre direitos autorais e dá outras providências“. )
E eu que pensava que copyleft era coisa de esquerdista…vamos ver se Pedro continuará acalentando estas idéias quando for tão famoso quanto Manuel Bandeira.
***
Agora, o texto citado por Sette Câmara, onde o Polzonoff escreve em represália ao comportamento dos herdeiros de Manuel Bandeira…bem, o cara confessa que escreveu a biografia do Bandeira porque ganhou uma bolsa:
“Sei que muita gente vai rir, mas a verdade é que não escrevi o livro pensando no PNLD, até porque não sabia como funcionavam estas coisas quando me sentei para escrevê-lo. Na época, ganhei uma bolsa de pesquisa (que me permitiu comprar um computador – que tal?) e um prazo apertado. E só. Ingênuo ou burro – chame como quiser – escrevi o livro para me ocupar. Eu estava prestes a me mudar para os Estados Unidos e a oportunidade de escrever o perfil apareceu como que para aplacar uma natural ansiedade.“
E depois, sobre o objeto do livro, diz o seguinte:
“É por isso que a obsessão destas pessoas me soa tão ridícula. Não é por nada, mas eu acho que isso dá até câncer. Será que estas pessoas realmente acham que eu sou um destes pobre-diabos que vai ficar brigando por causa de um livro sobre um poeta que ninguém, a não ser aqueles que vivem na realidade irreal dos meios literários, conhece?“
OK, acho que é possível simpatizar com a posição do Polzonoff de várias maneiras. E também confesso que é meio difícil saber ao certo o quão justa é a acusação dos herdeiros sem ter lido o livro, é claro. Eu sei por razões pessoais _ namorei uma moça que era neta (ilegítima) de Manuel Bandeira _ que o sujeito não era nenhum santo (ninguém é, certo?). Mas a estratégia de Polzonoff de vingar-se dos herdeiros cuspindo no prato em que comeu pode voltar-se contra ele _ afinal, como se interessar por um autor que confessa ser um “escritor de aluguel” capaz de escrever sobre os temas mais insignificantes?


5 comments
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Março 10, 2008 às 8:20 pm
Rogério
“Será que estas pessoas realmente acham que eu sou um destes pobre-diabos que vai ficar brigando por causa de um livro sobre um poeta que ninguém, a não ser aqueles que vivem na realidade irreal dos meios literários, conhece?“
Quanta crueldade!
Março 11, 2008 às 9:22 am
Chapado
“Estrela da Vida Inteira” é um livro que eu carregava para todo canto durante minha adolescência. Certo que eu fui um adolescente deprimido e me identificava muito com a ânsia por uma vida menos besta, manifesta na obra do Bandeira. Mesmo assim, estudante de escola pública, eu estava longe de viver na tal “realidade irreal dos meios literários” a que o Polzo sei-lá-o-que diz que o Manuel Bandeira está restrito.
Março 11, 2008 às 2:22 pm
outro Edson
“O poema não é perdido. O poema não é como um bolo que, se for comido, deixa de existir. Ele pode ser reproduzido indefinidamente.” É um belo pensamento, este do 7, mas nem um pouco original. Todo dia, quando dirijo-me ao batente, vejo na rua pessoas oferecendo aos passantes cópias reproduzidas indefinidamente do MS Windows, do Tropa de Elite e até da famosa película As Aventuras Eróticas de um Bigode Filtrador. Sempre achei que a gente do 7 achasse essas coisas uma terrível ofensa contra a tradição, a família e a propriedade.
Março 11, 2008 às 2:54 pm
gabiru
mas pinta-se o sette: além de ganhar uma grana coloca no cache
Abril 23, 2008 às 12:06 pm
Falar sem pensar «
[...] em que é preciso pagar para não estar sujeito a ela. Claro que isso não deve ser problema no mundo de Pedro, onde a pirataria é lei, mas whatever. [...]