Deu no Estadão:

Vaticano divulga lista de novos pecados capitais

Manipulação genética e uso de drogas foram alguns dos incluídos na nova lista

ROMA - A manipulação genética, o uso de drogas, a desigualdade social e a poluição ambiental estão entre os novos pecados capitais pelos quais os cristãos devem pedir perdão, segundo a nova lista apresentada no domingo, 9, pela Santa Sé.

O Vaticano atualizou a lista de pecados capitais para adaptá-la à “realidade da globalização”. Os novos pecados capitais - merecedores de condenação segundo a Igreja Católica - serão agregados aos anteriores: gula, luxúria, avareza, ira, soberba, vaidade e preguiça.

Publicada no domingo no jornal do Vaticano, Osservatore Romano, a lista foi divulgada depois que o Papa Bento 16 denunciou a “queda do sentimento de pecado no mundo secularizado”, em meio à redução no número de católicos que praticam a confissão.”

Alhures, consegui a lista completa. Na verdade não são só “novos pecados”: são SETE novos pecados:

(1) modificações genéticas;

(2) experimentos em humanos;

(3) poluição do meio ambiente;

(4) injustiça social;

(5) causar a pobreza;

(6) ambição financeira;

(7) ingestão de drogas.

Cada um dos pecados listados causa algumas apreensões e suscita discussões interessantes.

(1) a terapia genética é, evidentemente, um tipo de modificação genética. Vai ser proibida pela Igreja? O Vaticano deseja mesmo comprar MAIS esta briga?

(2) waterboarding é um experimento em humanos?

(3) praticamente toda atividade humana é poluente, de uma forma ou de outra. O Vaticano definirá o nível de poluição que constitui um pecado? Aliás, o aquecimento global é um pecado? Dá para excomungar George Bush por não ter ratificado o tratado de Kyoto?

(4), (5) e (6) seriam uma ressureição do pecado da usura?

(7) álcool entra nessa?

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É um fenômeno bem conhecido de que o estabelecimento de proibições e tabus, embora a princípio soem como uma forma um tanto irracional de se buscar adeptos, na verdade atendem a uma demanda realmente existente, que é a da sensação de pertencer a um grupo. Isso existiu em todas as civilizações e em todas as épocas, e implica em que o custo individual de respeitar os tabus certamente é compensado por um benefício intangível que é o do pertencimento a um grupo social. Daí que em sociedades primitivas, por exemplo, existam elaborados ritos de passagem, envolvendo todos eles algum grau de dor e/ou desconforto _ pois quanto maior o grau de dor ou desconforto, mais convencidos estarão os integrantes do grupo de que o novato postulante a participação será realmente confiável, já que decidiu incorrer neste custo. Esta lógica continua sendo comum à maioria dos grupamentos sociais, seja o de caçadores tribais, gangs criminais, sociedades estudantis, círculos acadêmicos e religiões.

Portanto, considero que analistas conservadores que aplaudiam o “endurecimento” da Igreja em relação aos temas tradicionais que sempre lhe foram caros não estavam longe da razão _ não que eu concorde com eles, apenas concordo em que ali, tratava-se de uma estratégia de sobrevivência da Igreja.

O problema, porém, é que estes 7 novos pecados (tirando a ingestão de drogas) não são individuais, são sociais. Isto fica explícito na continuação da matéria:

Em entrevista ao Osservatore Romano, monsenhor Gianfranco Girotti, responsável pelo tribunal da Cúria Romana que trata das questões internas do Vaticano, afirmou que, ao contrário dos anteriores, os novos pecados vão além dos direitos individuais e têm uma dimensão social.

Há várias áreas relacionadas aos direitos individuais e sociais dentro das quais incorrer em atitudes pecaminosas. Antes de mais nada, a área bioética, dentro da qual não podemos deixar de denunciar algumas violações de direitos fundamentais da natureza humana, através de experiências e manipulações genéticas, cujos êxitos são difíceis de prever e manter sob controle“.

Na avaliação do prelado, a injustiça social e os crimes ambientais também estão na lista das novas ofensas pelas quais os fiéis devem pedir perdão e fazer penitência. “A desigualdade social, onde os ricos se tornam cada vez mais ricos e os pobres, cada vez mais pobres, alimentam uma insuportável injustiça social. Depois tem a área da ecologia, que hoje desperta grande interesse”, apontou o responsável pelo tribunal vaticano.

Na entrevista, Girotti citou ainda o uso de drogas como um dos novos pecados que merecem condenação. “A droga enfraquece a psique e obscura a inteligência, deixando muitos jovens fora do circuito da Igreja”, explica.

Na interpretação de monsenhor Girotti, o pecado deixou de ser apenas uma questão pessoal e passou a ter maior influencia na sociedade. “Antes, o pecado tinha uma dimensão individual, hoje tem uma impacto social, principalmente por causa da globalização. A atenção ao pecado agora é mais urgente devido aos reflexos maiores e mais destruidores que pode ter“, disse Girotti.

O problema desse raciocínio é que não é muito fácil obter desses pecados o mesmo tipo de “certificação” perante o grupo que os pecados tradicionais, calcados sobre o comportamento do indivíduo (com a possível exceção da ingestão de drogas). Afinal, na maior parte dos casos, é muito difícil para um membro de uma comunidade detectar se outro membro está “poluindo o ambiente” (exceto, talvez, se ele dirige um SUV), ou se ele promove a injustiça social.

Neste caso, acho que mesmo do ponto de vista da lógica de sobrevivência da Igreja como instituição este movimento só tem apelo de marketing, mas é um balão de ar quente no que toca à sua real efetividade.