Olha, tenho a impressão de que encontrei mais uma incoerência em Reinaldo Azevedo. Não que isso seja grande mérito, mas é que essa é das boas. Comentando o voto do Ministro Ayres Britto no julgamento referente à ADIn contra a Lei de Biossegurança, Tio Rei disse:

Mantenho o que escrevi há dias, pois. O clima no Supremo é de aprovação das pesquisas, com as restrições que já estão postas, para as quais colaborou, diga-se, a boa militância da Igreja Católica. Se a vida cessa com a morte cerebral, e não me consta que a Igreja Católica seja contrária a transplantes, então ela tem início com as primeiras atividades cerebrais também. O argumento é forte.

Mais: reitero que os católicos estão perdendo uma oportunidade histórica de proclamar uma vitória na sua posição sobre o aborto — e agora referendada pela ciência. Já não dá mais para dizer que é apenas uma questão de fé. Nesse caso, algumas “católicas” poderão até reivindicar o direito de “decidir”, mas jamais como católicas — e, a prevalecer o entendimento em curso, a Justiça lhes dirá: não lhes cabe decidir. Pensem nisso.

Realmente parece não restar dúvidas de que o relacionamento com Gerald Thomas está fazendo Tio Rei, sei lá, rever seus conceitos e ver as coisas, digamos, sob um novo ângulo. Afinal, há quase três anos atrás ele escreveu no finado “Primeira Leitura” um texto que rodou a blogoseira chamado “O assassinato de Terri Schiavo e o direito de regar gerânios“. Nele, Tio Rei afirma o seguinte:

Sou evidentemente contrário, e já se percebeu, creio, a isso que chamam eutanásia. Não aceito, em princípio, que se estabeleçam precondições para definir vidas que mereçam ser vividas ou interrompidas. Será isso tão reacionário quanto alguns fazem crer?

Êpa. Ôpa. Ou bem uma coisa, ou bem outra; ou estarei errado em entender que dizer que “a vida cessa com a morte cerebral” já é “estabelecer precondições para definir vidas que mereçam ser vividas ou interrompidas“?

Mais curiosamente, o fato é que desde aquele tempo a posição deste Hermenauta tem sido precisamente esta: o que define a vida humana é o funcionamento do cérebro. Aliás, é esta convicção que também me faz defender o aborto de embriões em que ainda não existe atividade cerebral, e por conseguinte, é claro, também a pílula do dia seguinte, que Tio Rei também já vituperou.