
Barak Obama
Matéria na Folha de hoje (transcrevo a íntegra abaixo do folder), traduzida do NYT, fala dos sete meio irmãos africanos de Obama _ filhos do pai dele com outras mulheres. Uma frase proferida por sua irmã me chamou a atenção: “Pode-se confiar em Obama para se manter em diálogo com o mundo“. Chamou a atenção porque me fez lembrar de uma descrição que li sobre ele: “o provável primeiro presidente pós-americano dos EUA“. Cito de memória, já não me lembro onde li isso; de qualquer modo resolvi fazer uma busca, e descobri este texto de Mark Krikorian sobre o que é um pós-americano, onde ele explica o que seja isso:
“Let me be clear what I mean by a post-American. He’s not an enemy of America — not Alger Hiss or Jane Fonda or Louis Farrakhan. He’s not necessarily even a Michael Moore or Ted Kennedy. A post-American may actually still like America, but the emotion resembles the attachment one might feel to, say, suburban New Jersey — it can be a pleasant place to live, but you’re always open to a better offer. The post-American has a casual relationship with his native country, unlike the patriot, “who more than self his country loves,” as Katharine Lee Bates wrote. Put differently, the patriot is married to America; the post-American is just shacking up.
Now, there are two kinds of post-American. David Frum, in his “Unpatriotic Conservatives” article for NR last year, highlighted what I think is the less important kind: Those who focus on something less than America, whether white nationalists or neo-Confederates, etc. The second, more consequential and problematic kind are those who have moved beyond America, “citizens of the world,” as the cliché goes — in other words citizens (at least in the emotional sense) of nowhere in particular.” (grifo meu)
Scott McConnel, escrevendo no American Conservative, faz a ligação entre Obama e o “pós-americanismo” de Krikorian:
“He would not only be the United States’ first black president, but, to borrow immigration activist Mark Krikorian’s useful term, its first post-American one as well.
In his foreign-policy address before the Chicago Council on Global Affairs last April, Obama asserted that America’s security is “inextricably linked to the security of all people,” a recipe for global interventionism so promiscuous as to make neoconservatives almost prudent by comparison. He is a proponent of global free trade and high levels of immigration. Much of his memoir is devoted to his quest to connect with an extended family in Africa. This world-man aura is not without appeal, especially after eight years of a president deaf to what foreigners think and feel. But taken as far as Obama does, it would be an electoral liability.“
E finalmente, John O´Sullivan, no National Review, dá a última martelada em seu artigo “The Obama Appeal“:
“A glimpse at his speeches and programs demonstrates that he is committed, like all the Democratic candidates, to such policies as racial preferences, multiculturalism, liberal immigration laws, and the transfer of power from America’s constitutional republic to non-accountable global bodies and international law. For Obama is not merely a post-racist; he is a post-nationalist and a post-American too. But will the eventual Republican nominee be able to explain the difference?“
Não deixa de ser interessante observar como certos analistas políticos lêem esse tipo de acusação:
“(…)And that’s precisely the opposite of what the smear practitioners intend. Ignorance is their fuel. By depicting Obama in ceremonial Somali garb (a 2006 photo posted on the “Drudge Report”); by running anonymous quotes, supposedly from a “senior Pentagon official,” about how Obama’s ascension would be “the final victory” for “the Arab street” (news story in the Washington Times); and by writing, more politely, about how Obama’s priorities are really “post-nationalist” and “post-American” (the National Review), the goal is to insinuate that a Trojan Horse has breached the castle walls, with plans to lead us to ruin.‘
***
É um modo de ver as coisas, mas eu prefiro outro.
O que me leva a Marcus Ulpius Trajanus, o primeiro imperador de Roma não-romano, pois nascido na Ibéria. Como tal pode-se dizer que tenha sido o primeiro imperador romano “pós-romano”. Trajano levou o Império à sua máxima extensão territorial e é tido por muito historiadores como o protótipo do “bom governante” romano, com incentivos às obras públicas e outras políticas que fizeram seu reinado ser conhecido como uma época dourada _ a ponto de depois dele os senadores usarem por muito tempo a expressão “felicior Augusto, melior Traiano“, desejando a cada novo imperador que fosse alguém com mais sorte que Augusto e melhor do que Trajano _ os recordistas em cada quesito.
Em um mundo cada vez mais globalizado _ e onde os problemas, por isso mesmo, também o são _ não há muita dúvida de que um dia teremos alguma forma de organização como um governo mundial. Acho que Obama pode dar os primeiros passos para isso usando a influência da nação mais poderosa do mundo _ se apenas ela souber como sair da jaula sem arrebentar as louças do armário.
Obama tem sete meio-irmãos na África
Em história que une continentes, pai do pré-candidato democrata teve filhos antes e depois do casamento com mãe dele
O senador e a meia-irmã africana se viram pela primeira vez nos anos 80, depois que o americano enviou carta ao Quênia
ROGER COHEN
DO “NEW YORK TIMES”, EM NYANGOMA-KOGELO, QUÊNIA
Juntar o quebra-cabeça da família de Barack Obama é como fazer o mesmo com o quebra-cabeça do mundo. Ao final de uma rua de terra vermelha em Nyangoma-Kogelo, no Quênia, encontramos Auma Obama, a meia-irmã mais velha do senador, sentada à sombra de mangueiras.
Atrás dela, está a lápide do pai deles: “Barack Hussein Obama, nascido em 1936, morto em 1982″. Ele é o mistério. “Começamos a nos corresponder quando meu pai morreu”, me diz Auma, nascida um ano antes de seu irmão famoso. “A letra de Barack é exatamente igual a de meu pai. Ele escreveu para mim nas folhas de papel almaço grandes e amarelas que os americanos usam e que meu pai também usava.”
As palavras dele lançaram uma ponte entre universos, interligando irmãos que não se conheciam. A mãe de Auma, a queniana Grace Kezia, que hoje vive no Reino Unido, estava grávida quando Obama pai a deixou, em 1959, para estudar no Havaí. Ali, ele conheceu a americana Ann Dunham, de Wichita, Kansas, e em 1961, nasceu o filho deles, o atual pré-candidato democrata.
Auma ficou no Quênia com um irmão mais velho. Mais tarde, em meados dos anos 1960, depois de Obama pai retornar ao Quênia com diplomas da Universidade do Havaí e de Harvard, Grace teve dois outros filhos com ele. Três outros meninos, também meio-irmãos do senador Obama, nasceram de duas outras mulheres antes de Obama pai morrer num acidente automobilístico em Nairóbi.
Os pais do senador Obama morreram jovens: seu pai aos 46, sua mãe aos 52. Não surpreende que, como descreveu em seu primeiro livro, “Dreams From My Father” (Sonhos herdados de meu pai), ele tenha partido em busca de um passado. E Auma foi o caminho para encontrá-lo.
Ela estudou lingüística em Heidelberg, Alemanha, viveu muitos anos no Reino Unido e tem uma filha britânica de 10 anos de idade, Akinyi. Mas o Quênia é o seu lar. “Minha família atravessa todos os continentes”, ela observa. Partindo desse ponto, os Obama se projetaram para fora.
Acho convincente o argumento de Auma: que seu irmão é uma “figura unificadora” que representa “a transformação que as pessoas querem ver acontecer no mundo”; um homem de pai “preto como breu” e mãe “branca como leite”, como escreveu Obama, cuja exposição a vários continentes lhe proporcionou uma compreensão de um mundo em que convivem divisão e miscigenação.
Auma me conta que, antes de encontrar Obama pela primeira vez, em Chicago, nos anos 1980, ficou preocupada. “Eu não tinha certeza de que iria funcionar. Nós nos dávamos bem ao telefone, mas, quando sua expectativa é tão especial, você pode se decepcionar.”
Então ela foi adiando o encontro. Auma foi visitar uma amiga alemã, Elke, em Carbondale, no sul de Illinois, e depois viajou sete horas num ônibus da Greyhound para encontrar seu irmão. Se não desse certo, pensou, poderia retornar. Mas, ela me conta, “foi fácil, muito fácil -como poder soltar a respiração, finalmente”.
Dela, finalmente, veio a chave do mistério: as histórias sobre “o velho”, o pai que morreu cedo demais -seus problemas políticos por ser membro do grupo étnico luo, seu alcoolismo, suas mulheres, sua carreira que avançou aos trancos e barrancos, seu desaparecimento angustiante. Eram informações que o senador democrata vinha procurando.
Um fato estranho é que Obama descreve seu primeiro encontro com Auma como tendo ocorrido no aeroporto de Chicago, e não no terminal rodoviário da Greyhound, como ela conta. “Cheguei ao estacionamento do aeroporto às 15h15 e corri para o terminal”, escreve Obama em “Dreams”. “Ofegante, descrevi várias voltas de 360 graus.” Então ele viu “uma mulher africana emergindo do portão da alfândega”.
Esse parece ser um dos casos de “lapsos de memória” pelos quais Obama pede desculpas na introdução do livro. Mas o desculpo; a coragem com a qual ele partiu em busca de memórias dolorosas é singular. “Pode-se confiar em Obama para se manter em diálogo com o mundo”, afirma Auma.


3 comments
Comments feed for this article
Março 7, 2008 às 4:14 pm
André Kenji
Só um detalhe, palavra de um ex-editor da American Conservative: para cada posição conservadora de McConnell ele tem uma posição liberal. Aquele artigo não foi feito de má vontade: inclusive ele votou em Kerry.
Março 7, 2008 às 4:54 pm
Me
Nao sei daonde tiraram essa ideia de que o Obama eh pro free-trade.
http://www.ontheissues.org/2008/Barack_Obama_Free_Trade.htm
Março 8, 2008 às 12:01 am
Leonardo Bernardes
Olhaí, Hermenauta, as fotos do pequeno Obama:
http://www.rollingstone.com/photos/gallery/19066990/barack_obama_a_photo_history
PS. HTML funciona por aqui? testemos: Obama