No UOL, crônica do Le Monde sobre os 200 anos da chegada da família real portuguesa…com um ponto de vista muito francês. Mas não dá pra discordar:
“Crônica: “Muito obrigado, Napoleão”, dizem os brasileiros
Jean-Pierre Langellier
Todos os brasileiros poderão confirmar: o seu país existe graças a… Napoleão. O Brasil moderno é a conseqüência feliz de um excesso de orgulho imperial. Ele nasceu como nação porque Bonaparte havia obrigado a família real portuguesa a fugir para o outro lado do oceano, rumo à sua imensa colônia. Cem dias mais tarde, a dinastia dos Bragança desembarcava no Rio. Este fato aconteceu dois séculos atrás, em 8 de março de 1808.
Em 1806, o Imperador francês, no auge do seu poder, decreta o bloqueio continental contra a Inglaterra. Intimada a interromper todo comércio com ela, a Europa cumpre a ordem. Apenas Portugal reluta, não se conforma em trair a Grã-Bretanha, sua antiga protetora. Ele ganha tempo, lança mão de um jogo duplo, finge que irá ceder, mas, por trás da cortina de fumaça, assina um acordo secreto com Londres. Napoleão perde a paciência diante deste pequeno país insolente e lhe lança um ultimato. Ele terá de obedecer, caso contrário perderá o seu trono e a sua frota.
Em Lisboa reina um príncipe regente, Dom João, futuro D. João 6º, o Clemente. A sua mãe era a rainha Maria 1ª, também chamada de “A Louca” por ter afundado na demência depois da morte do seu filho primogênito. Ela havia se recusado, por motivos religiosos, a vacinar este último contra a varíola. Dom João tem 40 anos. É um homem obeso, tímido, indeciso. Ainda assim, diante da imposição autoritária dos franceses, ele irá tomar a decisão certa: exilar-se além dos mares. O tempo está acabando, pois Napoleão deu ordem ao general Junot para invadir Portugal. Eis que o oficial avança rumo a Lisboa, à frente de um exército de cerca de 25.000 homens.
O êxodo rumo à América constitui um projeto antigo, que é relembrado toda vez que o reino enfrenta um grande perigo. Desta vez, ele precisa ser posto em prática às pressas. Os víveres são amontoados, os arquivos são coletados, as jóias da Coroa - obras de arte, lingotes de ouro, diamantes do Brasil - são recolhidas. O conteúdo de 700 charretes acaba sendo reunido nos porões de 36 navios prontos para zarpar. No meio da confusão da partida, os 60.000 volumes da Biblioteca real e toda a prataria das igrejas permanecerão esquecidos no cais do porto. Tomada por um lampejo de lucidez, a “rainha louca” grita para o cocheiro que a está conduzindo para o porto: “Não corram tanto! As pessoas vão pensar que estamos fugindo!”
Na manhã de 29 de novembro, a chuva parou de cair, o sol está brilhando, o vento começa a ficar mais forte. É dada a ordem para partir. A frota desloca-se lentamente pelo rio Tejo e vai se afastando sob a proteção de uma esquadra inglesa. Já não era sem tempo. A vanguarda do general Junot alcança as docas uma hora depois do último navio da frota real ter desatracado. Aliás, a empreitada do general vai dar com os burros n’água. Milhares de insurretos tomarão as armas contra os seus regimentos, que retornarão para a França em agosto de 1808. A respeito de Dom João, Napoleão escreverá: “Ele é o único homem que conseguiu me pregar uma peça”.
A elite portuguesa inteira está fugindo entre céu e mar. Quantos estão nesta situação? Entre 5.000 e 15.000, segundo os historiadores. Nobres, oficiais, juízes, comerciante, bispos, médicos, pajens e camareiras acompanham a família real, da qual todos os membros estão presentes. O seu périplo é um pesadelo. Esses cortesões assustados e descontentes não serão poupados de nenhuma desgraça: as tempestades, as náuseas coletivas, o escorbuto, a falta de água. Uma invasão de piolhos obriga as mulheres a rasparem a cabeça.
Depois de uma travessia que durou 52 dias, Dom João desembarca em Salvador na Bahia. Pela primeira vez, um soberano da Europa pisa o solo da América. A festa dura uma semana, durante a qual milhares de súditos comparecem para beijar a mão do príncipe. Esta escala é uma jogada política. Dom João aproveita para reafirmar a sua autoridade sobre a população das províncias do Norte, em volta de uma cidade, Salvador, que foi a primeira capital do Brasil e se mostra nostálgica por ter perdido esta condição. Nela, o regente toma uma decisão crucial, a de abrir os portos para o comércio mundial. O fim do monopólio colonial é o preço a ser pago pelo seu apoio à Inglaterra, que dele será a principal beneficiária.
Cem dias depois de ter deixado Lisboa, a frota atraca na baía do Rio. No dia seguinte, a família real desembarca em meio a um ambiente de alegria. Ouvem-se estrondos de canhões, os sinos tocam seus carrilhões, muitos se borrifam com água benta, respirando os vapores de incenso. Predomina um contraste impressionante entre esta cidade “africana”, povoada numa proporção de dois terços por negros e mestiços, entregue aos aventureiros e aos mercadores de escravos, e esses cortesões pálidos que trajam roupas pesadas, um pouco ridículos.
Três séculos depois da sua descoberta por Pedro Álvares Cabral, em 22 de abril de 1500, o Brasil continua sendo uma terra inexplorada. É um país de fronteiras imprecisas, desprovido de um verdadeiro poder central, que ainda não possui nem um comércio interno, nem uma moeda. Os seus 3 milhões de habitantes ainda não se consideram verdadeiramente como “brasileiros”. A chegada do príncipe irá transformar a colônia numa metrópole. Por meio das suas iniciativas, o Rio cresce em tamanho, se embeleza e se refina. A cidade se abre para as mercadorias e as idéias.
Dom João implanta um Estado estável e organizado. Ele confere ao Brasil a sua unidade territorial, política, econômica e lingüística. No momento em que a América espanhola está sendo tomada por levantes, guerras e dilaceramentos, o Brasil emancipa-se suavemente da tutela portuguesa. Em 16 de dezembro de 1815, o regente proclama “o reino unido de Portugal, do Brasil e de Algarves”, tornando a cidade do Rio de Janeiro com o mesmo status de Lisboa. Ele torna-se o rei João 6º. Um ano depois do seu retorno ao país natal, o seu filho Dom Pedro proclama a Independência (em 7 de setembro de 1822) e se torna o primeiro imperador do Brasil.
Hoje em dia, o Brasil está celebrando com orgulho o bicentenário da chegada de Dom João. Ele organiza exposições, emite selos e cunha moedas comemorativas. Por ocasião do mais recente carnaval, várias escolas de samba fizeram deste evento histórico o tema do seu desfile. Um dos refrões, que era entoado em coro pela multidão, concluía-se com um alegre: “Até logo, Napoleão!” Até logo e obrigado. “
Como não acompanhei o desfile das escolas de samba, não sei se esta última história aí é verdade. Alguém confirma?


2 comments
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Maio 6, 2008 às 1:06 pm
José Ermitão
Só aparentemente isto é verdade, independentemente do número de brasileiros que o confirmem ou deixem de confirmar.
Cito (de memória) Sartre: o importante não é o que a história faz de nós; o importante é o que nós fazemos com o que a história faz de nós.
Não foi graças a Napoleão; foi graças à política seguida pelo governo de D. João VI , na metrópole e no Brasil.
Antes de qualquer brasileiro dizer isto, era óptimo que estudasse o assunto mais aprofundadamente e que não esquecesse o pensamento e acção de Rodrigo Sousa Coutinho, por exemplo.
Quem fez/criou o Brasil foram os portugueses: descobrindo a terra, colonizando-a, alargando o espaço para além de Tordesilhas, abafando as inconfidências (ah, pois!), criando as instituições base do estado independente, etc. Até o imperador começou por ser o filho do rei português!
O Brasil não precisa de mitos palermas ou ideias falsas para legitimar a sua independência. Como também não precisa de diminuir o papel de Portugal para se afirmar maior. Ah, já agora devo dizer que não foram os portugueses que deram cabo do pau-brasil, apesar de os brasileiros também estarem convencidos disso.
A propósito, tenho contactado com muito brasileiro que, depois de visitar Portugal, jura que nunca mais conta anedotas sobre portugueses. Ora aí está uma coisa com que eu não concordo - também as conto sobre os brasileiros e sou um brasilófilo. Brasileiro para mim é como um irmão; e quando encontro um ou uma na Turquia, na Inglaterra, na Hungria, no Egipto, seja lá onde for, é cá uma alegria como se de um reencontro entre irmãos se tratasse. E quando se descobre que o avô dele é de uma terra que a gente conhece perfeitamente, até a rua onde esse avô nasceu, a festa é de arromba.
Sem complexos nenhuns - aqui vai um abraço.
J. Ermitão
Maio 6, 2008 às 4:16 pm
ohermenauta
Prezado Ermitão,
Ninguém nega que Portugal descobriu e colonizou o Brasil. Mas não fosse Napoleão, a Corte não teria vindo ao país, e não tivesse vindo a Corte ao País, seríamos hoje uma enorme Angola _ ou mais provavelmente, várias Angolas. Dessa causalidade usufruiu o próprio Coutinho, na verdade.
E nem por isso dou vazão aqui a qualquer sentimento anti-lusitano, muito pelo contrário. Aliás, sou neto de portugueses. Porém é preciso entender a História…
grande abraço!