Alon, impagável:
“A direita vive a falar mal dos nossos heróis porque não tem como falar bem dos heróis dela própria. O financista que, graças aos juros escorchantes, remove da formação social as manchas de atraso representadas pela pequena propriedade ineficaz. O grande sonegador de impostos que drena as arcas do Tesouro e, com isso, evita a concentração de recursos da sociedade nas mãos de um estado ineficiente -para que, com mais dinheiro no bolso, a sociedade possa criar ela própria a riqueza que vai proporcionar um mundo melhor para todos. O ricaço dono de imóveis que despeja o modesto inquilino por falta de pagamento e, assim, ajuda a consolidar a regra de que contratos são feitos para serem cumpridos, de que a segurança jurídica é um valor universal. O executivo de sucesso que promove um downsizing capaz de levar a empresa a patamares inimagináveis de produtividade. Quem se candidata a fazer um filme com tais personagens como heróis? Ninguém. Esse pessoal só é herói em revistas de negócios. Em nenhum outro lugar.“


10 comments
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Março 5, 2008 às 11:38 am
João Paulo Rodrigues
O posto do Alon é de uma barafunda de dar dó. É daqueles textos de “lavar a alma”, um tipo perigoso porque as facilidades podem levar o raciocínio a misturar categorias distintas.
Em primeiro lugar, falar de Hollywoood e não mencionar ser a indústria que melhor construiu o mito do individualismo triunfante e do capitalismo como modelo aberto aos capazes, que cria os “winners” e “loosers”, é meio complicado. Não é a toa que Alon mencionou um filme chinfrim e com ele teve uma epifania. Sua “análise” tem a estatura da dramaturgia de Salma Hayek (e não da sua beleza). Se tem coisa que os americanos gostam de fantasiar é o México, que serve como exemplo de barbárie (Meu ódio será sua herança), de exploração dos pobres e de território para a redenção dos americanos (Sete homens e um destino). De mais a mais, o tema da liberdade e das oportunidades, recorrente em Hollywood, não está ausente do discurso de direita nos EUA.
Em segundo, não está muito claro qual seu objeto exatamanete. Parece que há uma equalização entre heroísmo e pertencimento a um grupo social. Se Alon estiver se referindo a heróis nacionais (políticos, militares etc.), isso tem pouco a ver com banqueiros e que tais. Se Alon estiver falando de tipos que estimulam admiração e respeito, bom, a questão é saber se a esquerda os tem. Vai ser difícil convencer que um Stédile é um homem amplamente admirado pelas massas. É até capaz que Justus tenha ibope maior. De qualquer forma, mesmo nos EUA é difícil dizer que os CEOs sejam também heróis populares, sem, com isso, maiores danos à direita, comparando-a com seu semi-ocaso no Brasil.
PS: haveria mais a dizer, como o fato de que é impossível fazer um filme com banqueiros e financistas como heróis por que no cinema, mais que em outras formatos, como é que você apresenta um agente poderoso sendo oprimido, passando por dificuldades, injustiçado, sem recursos, sem saída etc. Daí que mesmo filmes mais à direita recorram também ao homem comum, mesmo que ele seja um policial violento ou um vigilante sanguinário. Ele é sempre um homem sozinho, contra tudo, contra todos e contra o sistema. Mas continua mito da direita.
Março 5, 2008 às 11:54 am
ohermenauta
JPR,
Acho que o seu PS explica bem o que o Alon quis dizer. Até porque existem poucos filmes com “heróis de direita” como os que você citou. Me lembro dos personagens de John Wayne e Silvester Stallone como exemplos bem-sucedidos do ponto de vista da popularidade. Se quiser, bote aí no saco o Capitão Nascimento, que entretanto é um personagem um pouco mais complexo. E no campo dos super-heróis, acho que o melhor exemplo é mesmo o Superhomem.
Março 5, 2008 às 12:43 pm
João Paulo Rodrigues
Olha, não sei não. Tem o Bruce Willys, o Mel Gibson, o Schwarzennegger, o Charles Bronson.
E há mais: embora haja uma penca de filmes em que grupos de pessoas comuns, ou um sujeito apenas, se unem contra os “poderosos”, é bom lembrar que quase sempre coisas como sindicatos são retratados em filmes como um bando de parasitas, quando não são mera cobertura para a máfia.
Março 5, 2008 às 12:49 pm
João Paulo Rodrigues
Ah, sim. E tem Steven Seagal e Jean-Claude Van Damme.
Março 5, 2008 às 1:25 pm
ohermenauta
Olha, de Bruce Willys e o antigo Mel Gibson não dá pra falar isso não. Do austríaco tampouco. Tanto nos Terminators quanto em alguns outros filmes (”Total Recall”, por exemplo) os vilões em última análise fazem parte do complexo industrial-militar. Também teria minhas dúvidas com Van Damme. Agora, Charles Bronson é pule de dez, reconheço, a ainda te dou a colher de chá de lembrar de alguém que você esqueceu: o bom e velho Chuck Norris.
Dois detalhes, porém: Charles Bronson e Chuck Norris são objeto de ridículo na maior parte das rodas de conversação. Não dá pra levá-los a sério como “heróis” na maior parte dos ambientes normais. Talvez em alguma estalagem redneck em Idaho, vá lá.
Mas o que é mais importante no texto do Alon é mostrar que a direita, para ter ambições ao heroísmo de entretenimento e assim entrar na corrida gramsciana pela hegemonia, tem que deslocar o eixo conceitual do negócio e criar heróis que são corruptelas, simulacros dos heróis da esquerda. Porque os agentes que realmente se beneficiam das políticas de direita, que são aqueles que ele enumerou, dificilmente poderiam ser considerados heróis.
Março 5, 2008 às 3:29 pm
ohermenauta
O Argeu quis escrever seu comentário aqui:
“Caro Hermenauta, apesar de minha simpatia declarada pela esquerda, não partilho de sua opinião sobre o texto do Alon. RA iria fazer bandeirinhas de papel dele facinho. Primeiro iria dizer que sonegadores nunca foram heróis da direita. Segundo iria dizer que heróis da direita, dignos de protagonizarem filmes de capa e espada são Henry Ford, Thomas Edison, alguns rapazes do vale do silício e iria desfiar um enorme rosário de qualidade para eles. Por fim, diria que mesmo que não fosse assim, não apagaria o fato de que Fidel, herói da esquerda, mandou uma multidão para o paredão.
O texto é bom para embalar convertidos, mas para argumentar, é horrível. É um tiro no pé.”
Março 5, 2008 às 3:52 pm
andre lopes
Porra, e o Jack Bauer?
Março 5, 2008 às 4:13 pm
caliban
Não tem nem pra saída: o personagem do Michael Douglas em “Um dia de fúria”. Como diz o Hermê, eu resto meu caso.
Março 5, 2008 às 4:59 pm
ohermenauta
Andre,
Pois é, acredita que eu jamais vi um episódio completo de 24 Horas? Não sei dizer.
Caliban,
Eu não me lembro de muita coisa do filme, mas não dá pra fazer o personagem ser um antiherói oprimido por uma sociedade materialista como a do moderno capitalismo americano, não???
Março 5, 2008 às 7:52 pm
Joao Paulo Rodrigues
Creio que o primeiro a considerar é que dificilmente os heróis mais “à esquerda” se adequam à esquerda que ele se refere. Estamos falando de Estados Unidos. E o mito do sujeito que vence por seus méritos ou que combate um conjunto de indivíduos moralmente comprometidos, por falta de melhor expressão no momento, alimenta todo o espectro político americano. Um alto executivo do J.P.Morgan ou do Chase, ou um advogado de uma grande firma de NY, pode lamentar que não se façam filmes sobre eles, ou que eles apareçam na telinha como aquele velho dono de uma banca de solicitors que aparece em “O amor custa caro”, ou que ele seja comparado ao demo (”O advogado do diabo”) ou seus negócios como gerando malucos (”Tudo por dinheiro”). Todavia, é bem possível que ele acredite que o sistema que ele defende é o que permite esses “heróis anônimos”.
Além disso, é bom lembrar de um gênero que já desapareceu em parte (nas suas conotações políticas), e que deixou não só filmes marcantes, mas fez extremo sucesso. Refiro-me aos filmes de ficção científica, boa parte uma alegoria do comunismo.
Mais, podemos recuperar filmes como “Assim caminha a humanidade”. Tá bem, Rock Hudson e James Dean não são exatamente heróis, mas que a platéia se identifica com suas falhas e defeitos é inegável. Tampouco dá para fazer do filme um libelo contra as grandes empresas do petróleo.
E talvez essa não seja uma boa lembrança. Alguém pode invocar JR e, aí…
Olha, agora pensando bem, claro que dá para falar do Bruce Willys! No Duro de Matar 1 e no 3 ele acaba com um grupo terrorista formado por ex-comunistas, sendo que no 1 aqueles seres abjetos e horríveis nos deixam com muita pena de um CEO japonês, assassinado a sangue frio por aqueles facínoras sem sentimentos.
No 3 ele desbarata militares traidores, que pretendiam salvar um sujeito que é uma clara referência ao general Noriega, aquele apeado do poder pelo Reagan… Nossa! Imagina se o Uribe se lembra dessa história!
Sei lá, talvez isso não diga nada, mas ainda assim não são referências muito à esquerda (a invasão do Panamá foi a primeira vez que comecei a me estranhar com amigos de esquerda que acusavam a invasão de imperialismo, denunciava o massacre dos panamenhos e pataquadas nesta linha… hmmm, acho que vou passar lá no Reinaldo Azevedo e cantar a bola prá ele, he he).
Nas outras referências, acho que você está certo. Contudo (sempre tem um contudo comigo), Norris e Bronson tinham público cativo e grande. E se eles não servem, podemos lembrar do Dirty Harry.