A esta altura pelo menos alguns dos meus 4,5 leitores estão cientes de que o pau está andou quebrando (em sentido figurado…) entre o Pedro Dória e o Idelber Avelar do Biscoito. Motivo: ofensiva israelense sobre Gaza.

Eis aí um assunto sobre o qual eu realmente não gosto muito de debater. Fixei uma posição a respeito do assunto há tempos: a) a criação do Estado de Israel naquele lugar foi um erro catastrófico; b) Israel, porém, é um fato consumado; c) a única saída ali é criar um estado federal israelo-palestino. Acho que muitos concordariam com a), muitos outros concordariam com b), e um grande número gostaria de me internar em um hospício por causa de c). Como diz o Talmude, porém, “rico é aquele que está satisfeito com seu quinhão”.

Acho que se fosse possível traçar uma linha indo da posição mais pró-Israel até a mais anti-Israel, Pedro Dória ficaria perto do centro, mas ainda do lado pró-Israel. Mas ele ainda assim é crítico das medidas tomadas por aquele país.

Por isso francamente achei que Idelber está enganado na sua interpretação dessa frase do Pedro Dória:

O raciocínio do Hamas é o seguinte: os israelenses vão desistir. Primeiro, com foguetinhos, expulsam a população de Sderot. Se conseguirem, começam operações semelhantes na Cisjordânia, na fronteira do Líbano, foguetinhos de toda parte para aumentar o estresse de viver em Israel. Enquanto isso, os árabes agüentam o sangue. São mais duros, morrem sem se preocupar. O tempo e a disposição de morrer está do lado dos militantes do Hamas.

A questão é que o Hamas esqueceu de combinar com as famílias palestinas. Ninguém quer morrer assim.

Idelber interpretou a frase em negrito como um atestado de racismo. Confrontado na caixa de comentários do post por aqueles que interpretam diferentemente a frase _ como sendo não a convição de Pedro Dória, mas a impressão que Pedro Dória tem de como pensam as próprias autoridades palestinas _ Idelber disse:

O que me parece óbvio, ululante mesmo, gritante de tão óbvio, é que se alguém diz “O raciocínio de X é Y, e enquanto isso Z acontece”, a responsabilidade pela afirmação “enquanto isso Z acontece” é do autor da frase, não do X citado na dita cuja. A frase seguinte (”O tempo e a disposição de morrer está do lado dos militantes do Hamas”) reforça a conclusão óbvia de que o autor do trecho está afirmando o dito, não atribuindo-o a outrem.

Mas vai ver que é a indignação que está prejudicando meu domínio da língua portuguesa mesmo.

Bom, não sei. Pedro Dória pode ser, secretamente, um sionista, mas acho que Idelber realmente deixou a indignação sobrepujar sua capacidade de interpretar este texto _ apesar de que Dória, em minha opinião, poderia ter realmente caprichado um pouquinho mais no fraseado. Aliás, em post mais recente, Dória se explica:

O sinal de que o diálogo se perdeu de vez está no ato do Guterman de pedir o chapéu. E está na resposta agressiva que um amigo querido escreveu para meu último post. Discordar é do jogo. Quando você vem com virulência, ao menos é de praxe alertar antes com uma mensagem. Um gesto ao menos de cortesia se espera no debate. Mas nem isso. A irracionalidade venceu de vez a partida quando um sujeito cordial e literato do quilate do Idelber Avelar perde até a capacidade de interpretar texto.

Uma de suas críticas ele pesca de uma frase minha: Enquanto isso, os árabes agüentam o sangue. São mais duros, morrem sem se preocupar. Isolado do contexto, é um horror. Mas o parágrafo começa com ‘o raciocínio do Hamas é o seguinte’, dois pontos. Aí lista. O Hamas acredita no sacrifício humano. Não sou eu que digo. O que diz são seus programas infantis de tevê. As aulas em suas escolas. Eles preparam homens-bomba! Se isso não pode ser interpretado como ‘morrem sem se preocupar’, o que pode? Eu não acho que o Hamas represente o que pensam os palestinos todos. É por isso que após descrever como é o Hamas, concluo: A questão é que o Hamas esqueceu de combinar com as famílias palestinas. Ninguém quer morrer assim. Mas o Idelber esqueceu de ler o final. Mobilizado, estava cego. Tinha tirado uma conclusão a respeito do que penso e esqueceu de ler o que de fato escrevi.

Por sua vez, porém, também acho que Dória termina exagerando:

Cansa a perspectiva de ter que discutir com gente que a gente gosta. E de ter que ouvir todos aqueles que aproveitam-se do discurso legítimo de defesa da Palestina para levantar de novo, discretamente, sutilmente, como se nada quisessem, o mesmo discurso que levou ao pesadelo dos anos 1940. É fácil dizer que não aconteceria mais. O vampiro de Dusseldorf está sempre à espreita.

Não deixa de ser irônico o ato falho de Dória, pois há quem interprete o personagem de Becker, o vampiro, como uma metáfora dos judeus _ Peter Lorre era judeu, e a esposa e roteirista de Fritz Lang, Thea von Harbou, era pró nazista. Não foi à toa que o próprio Goebbels celebrou o filme como uma obra “fantastic, free of phony humanitarian sentiments”.