Sérgio Leo sumarizou em um parágrafo uma parte da situação ao norte das nossas fronteiras da qual não devemos nos esquecer:
“Tente imaginar guerrilheiros anti-Chávez escondidos na floresta amazônica, para lá da serra do Caparaó, em algum lugar de Roraima. Imagine se, por isso, o presidente venezuelano ordenasse uma incursão de tropas da Venezuela através da fronteira, usando seus recém-comprados jatos Sukhoi para dizimar a oposição armada, em pleno Brasil. Que grita não haveria por aqui, hein? E com razão.“
Assino embaixo. Não posso deixar de notar, porém, que a mesma grita, com a mesma razão, se colocaria se descobríssemos que Chávez andou doando 300 milhões de dólares para algum hipotético movimento guerrilheiro amazonense. A meu ver esta é a acusação mais grave no imbroglio, mas ao mesmo tempo também a mais frágil. Não só por ter sido gerada “a posteriori” como também pelo fato de que afinal uma das pedras de toque do discurso anti-FARC é sua caracterização como “narco-” alguma coisa, com blogs anaeróbicos como o de Reinaldo Azevedo fazendo todas as composições possíveis da palavra, de forma bastante imaginativa: até agora já colecionei narcoguerrilheiros, narcocomunistas, narcoterroristas, narcotraficantes, narcobandoleiros. Tudo isso sempre para enfatizar que as FARC não são “evil” apenas por serem “de esquerda”, mas também por se manterem através do tráfico de drogas. Bem, quem vive do tráfico de drogas não vai precisar desse dinheiro miúdo do Chávez, não é mesmo?


6 comments
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Março 4, 2008 às 11:51 am
João Paulo Rodrigues
“Bem, quem vive do tráfico de drogas não vai precisar desse dinheiro miúdo do Chávez, não é mesmo?”
Claro, claro. Maluf não precisava, digamos, de certos contratos, porque já era rico.
Beira-Mar não precisava ir até a Colômbia, pois já tinha bastante aqui no Brasil.
Cheney não precisava da Halliburton, pois já vivia bem com outros contatos.
As Farc são narcos. O que era suspeita já há muito se comprovou. O Reys já havia admitido isso em entrevistas. Jornalistas colombianos, espanhóis, de outros países, de veículos mais à esquerda e mais à direita relataram isso em várias ocasiões. Ex-guerrilheiros já admitiram. Cientistas políticos de vários países já identificaram isso. Beira-Mar e outros traficantes presos já confessaram a ligação. Será preciso mais?
Março 4, 2008 às 11:57 am
S Leo
Obrigado, hermê, seu link é uma honra e tanto. O fato é que não há força política ou econômica na Colômbia que não se veja de alguma forma tocada pelo poderio do tráfico. E, obrigada à clandestinidade e necessitando de compra de armas e bens, a farc (como seus inimigos, os para-militares) aliou-se aos traficantes.
A esquerda acusa Uribe (bom, a Newsweek também o fêz, essa revista criptocomunista) de ligações, no passado, com o cartel de Medelín. O problema é que a ligação com os narcotraficantes coloca limites à missão revolcionária de nossos romanticos guerrilheiros. Se o objetivo é tomar o controle do estado, o que fazer, em caso de êxito, se um dos financiadores dessa luta participa do crime organizado?
Março 4, 2008 às 11:59 am
victor freire
essa dos 300 milhões é muito difícil de engolir: é dinheiro suficiente pra comprar um arsenal bélico de qualidade, e não ficar improvisando morteiros com cilindros de gnv, como eles costumam fazer. segundo, qualquer um faz uma chave de criptografia de 64 bits pra proteger dados confidenciais, e não seria em poucas horas que a polícia colombiana iria descobrir, considerando que o dito cujo protegeu tais documentos desta forma.
impressionante a capacidade do governo colombiano de atirar no próprio pé quando tudo está a seu favor.
Março 4, 2008 às 12:09 pm
ohermenauta
JPR,
Se você ler atentamente o post, verá que em nenhum momento duvido do envolvimento das FARC com o narcotráfico, muito pelo contrário.
S Leo,
No mínimo seria um governo pró-descriminalização. Da cocaína.
Victor,
Concordo plenamente, menos com a penúria das FARC. Isso talvez se deva mais a questões logísticas. Mas o tráfico proporciona um dinheiro fácil pois a lucratividade é enorme.
Março 5, 2008 às 1:38 am
Kitagawa
Sinceramente, não acharia nada estranho caso Chavez tenha
dado apoio financeiro às FARC. Não estou dizendo que
isso é verdade, mas não acho inverossimil.
A explicação para a sua suspeita achei bem fraquinha.
“DInhieiro? Não, obrigado, já ganho bem traficando e
sequestrando…”
Março 5, 2008 às 1:42 am
ratapulgo radiotaivo
Ou, melhor ainda,
tente imaginar um comando militar brasileiro sequestrando em Mônaco o nosso querido Salvatore Cacciolla — criminoso já condenado—, e trazendo-o para o País para ser encarcerado.
Pode? Ou neste caso as fronteiras e soberania nacional começam a valer alguma coisa?
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As FARC são narcos, certamente. Mas não são são os únicos narcos. A guerrilha de direita (terrorista?) que apóia Uribe também é narco, assim como é narco boa parte do parlamento colombiano.
Aliás, o que na economia colombiana não é narco?
Quer acabar com os narcos? Legalize a cocaína. O preço despenca e as FARC teriam que negociar um café orgânico marca Chê para sustentar a organização. Que tal?