Tio Rei tem um post de “uso dual”: não só faz o habitual marketing da Veja, o que imagino seja exigido dele por contrato todo fim de semana, como tenta tirar o dele da reta na questão das células-tronco embrionárias.
Ele comenta a entrevista da bióloga Mayana Zatz à seção Páginas Amarelas da Veja que vai às bancas esta semana. Reinaldo começa por, digamos, separar o joio do trigo, diferenciando muito bem a entrevistada dos ateus anticatólicos xexelentos, embora a moça esteja defendendo, como os ateus empedernidos, o uso de células tronco embrionárias na pesquisa e na terapia. Certo, certo, para alguém que quase mostrou a bunda para Gerald Thomas e acabou a semana no maior LOVE com o teatrólogo alienígena, uma incoerência a mais ou a menos não fará tanta diferença para Tio Rei. Mas lá pelas tantas ele me aparece com um parágrafo daqueles:
“Portanto, nada de pôr a bióloga no mesmo saco de gatos pardos do anticristianismo — ou, mais especificamente, anticatolicismo — militante, que quer meter goela abaixo da sociedade um pacote, de que a liberação do aborto e a pesquisa com células embrionárias seriam pautas gêmeas. Mayana demonstra que não são. Ela fala como um cientista, interessada nos relevos da diferença, não como um ideólogo, geralmente ocupado em descaracterizar as particularidades para nos impor uma pauta que é política.“
Em primeiro lugar, não há anticatólicos querendo meter goela abaixo da sociedade um pacote. Há, sim, católicos querendo proibir certas atividades que podem ser benéficas para toda a sociedade _ a Lei para isso já foi aprovada, está em vigor, e é o lobby da Igreja que quer derrubá-la no tapetão.
Em segundo lugar, quem sempre disse que “a liberação do aborto e a pesquisa com células embrionárias seriam pautas gêmeas” foram os antiabortistas. Aliás, é precisamente por isso que a própria Igreja foi ao STF contra a Lei de Biossegurança, ué. Os cientistas sempre souberam separar as coisas. Aliás, para uma pessoa que se pretende tão ilustrada sobre o assunto quanto Reinaldo Azevedo chega a ser curioso que ele só atente para a razoabilidade do argumento agora, como se ele tivesse aparecido pela primeira vez nas páginas da Veja. Uma rápida pesquisa no Google usando como argumentos os termos “Mayana Zatz”, “célula tronco”, “equivale” e “aborto” traz 97 hits com artigos da geneticista, com quase todos eles falando exatamente o que falou à Veja, em veículos tão distintos quanto a Superinteressante, o blog do Drauzio Varela e o site do ex-ministro Bresser Pereira. Neste último, aliás, encontra-se uma matéria onde se revela um diálogo fantástico entre o inquisidor-mor da Igreja dentro da República e a geneticista:
“O subprocurador-geral da República Cláudio Fonteles, autor da ação de inconstitucionalidade, disse da geneticista Mayana Zatz, uma das cientistas mais respeitadas do país e defensora da legislação no STF: “A doutora Mayana Zatz, que é o principal elemento de quem pensa diferentemente da gente, tem também uma ótica religiosa, na medida em que ela é judia e não nega o fato”.
Zatz foi precisa na resposta: “Estou triste, porque isso contraria a tradição de tolerância e de respeito à diversidade religiosa que caracterizam este país. Posso garantir que minha defesa da pesquisa com células-tronco embrionárias está longe de ser motivada por razões religiosas. É por meus pacientes, para minorar o sofrimento”. “
Aliás, não deixa de ser interessante a alusão ao judaísmo. Israel é um dos países que não só permite a pesquisa em células tronco embrionárias como está na ponta dessa pesquisa, não só porque é ainda é um Estado com razoável nível de laicidade como porque para o judaísmo o feto só é humano quando começa a assumir forma humana, no quadrigésimo dia de desenvolvimento. No que foi um dia seguido por teólogos como Santo Agostinho. Infelizmente, Tio Rei, que chega a invocar o Pentateuco e a continuidade entre o Velho e o Novo Testamentos para defender “o jeito cristão de matar”, parece preferir não levar os paralelos teológicos a este ponto.

Não deixa de ser interessante que estejamos junto da África e dos Estados Unidos…


2 comments
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Março 1, 2008 às 9:27 pm
Gilvan Teixeira
Eu tenho Esclerose Lateral Amiotrófica - ELA, doença degenerativa sem cura e com sobrevida média de 3 anos. Ou seja sou um pé na cova. Quando tenho conhecimento desse tipo de gente que não aceita o densenvolvimento da ciência, com o objetivo de me salvar, eu chego a torcer para que morram ates de mim, apesar de saber que isto é quase impossível. Eu realmente odeio esses tipos de Reinaldinhos e seus seguidores. Cara, a igreja católica é realmente um atraso.
Março 1, 2008 às 11:20 pm
victor freire
sobre os países que permitem a pesquisa: não deixa de ser interessante que o irã, “aqueles bárbaros”, na visão de muita gente, permitem a pesquisa. a rússia, os eternos inimigos, também. e aqueles comunistas (social-democratas e comunistas pra esse tipo de gente são a mesma coisa) da suécia e finlândia também.
já que os embriões estão congelados mesmo e ninguém vai engravidar tanto in vitro (normalmente fazem uns 4 embriões pra cada tentativa de tratamento), libera logo. e isso porque, pessoalmente, eu sou contra o aborto sem justificativa específica.