Fico pensando no que aconteceria se um Lúcio da vida entrasse no blog do Reinaldo Azevedo e escrevesse o seguinte:

Reinaldo,
Você possui um blog e tenta esclarecer algumas coisas para os seus leitores. No entanto, seus escritos são muito confusos. Só pude perceber que você tem ranço com o ateísmo e com o Presidente Lula. Mas no seu texto não dá para entender por que. Não consegui enxergar os seus motivos, parece que essa querela tem raízes no passado, por isso, não possuo elementos, e realmente não consegui entender para quê você está chamando atenção.
Tem gente que fica impressionada com textos que são complicados, parece que quem escreveu quebrou muito a cabeça para escrevê-los e por isso merece consideração. Quanta comiseração!
O texto pode ser agradável para aqueles que concordam com o objeto que está sendo atacado e criticado. Esse pessoal acha que você está abafando, por que esta falando mal daquilo ou daquele que eles também não gostam. Mas, essa é somente um tipo de comunicação emocional ou afetiva, que funciona somente para a exaltação narcísica, reservada para adeptos de uma mesma seita. Não tem valor de conhecimento. Você agrada alguns, por que diz exatamente aquilo que eles querem ouvir, mesmo que seja maneira confusa. O que não é um grande problema, mas, convenhamos, é muita limitação.
Ampliar mesmo, qualquer debate e qualquer assunto, acontecerá quando, através da razão se buscará elucidar a verdade. Deixando-se de lado os juízos e arrotos emocionais, que só fazem a queda mental da auto enganação.
Acho que você tem que refletir melhor sobre o que esta falando ou pensando para depois escrever com racionalidade e assim fazer uma comunicação mais universal e verdadeira.

Certamente seria chamado de petralha boçal, a começar pelos erros de português. Mas o Hermenauta lhe dispensará um tratamento mais humanitário, Lúcio:

Hermenauta,
Você possui um blog e tenta esclarecer algumas coisas para os seus leitores. No entanto, seus escritos são muito confusos. Só pude perceber que você tem ranço com a religião católica e com o Reinaldo Azevedo. Mas no seu texto não dá para entender por que. Não consegui enxergar os seus motivos, parece que essa querela tem raízes no passado, por isso, não possuo elementos, e realmente não consegui entender para quê você está chamando atenção.

Bem, acho que você foi muito apressado, apressado a ponto de não parar para pensar que a confusão a que você se refere pode estar tanto no que eu escrevo quanto em sua cabeça. Pelo que se segue de sua mensagem, eu penso estar próximo da realidade ao afirmar que 90% da confusão estabelecida entre nós dois diz mais respeito ao receptor do que à mensagem ou ao emissor.

Por exemplo: o que significa “ranço com a religião católica e com Reinaldo Azevedo“? Quanto à primeira, é verdade que eu não a tenho em alta conta _ e nem a maioria das religiões, por falar nisso. Mas não tenho nenhum problema com os que acreditam nela, exceto na medida em que seus fiéis pretendem “exportar” sua crendice para os que dela não compartilham. Já quanto a Reinaldo Azevedo eu, obviamente, não tenho nada de pessoal contra ele. Mas foi ele quem escolheu ser um porta voz da direita. E nem ele nem seus seguidores podem esperar que isso se dê de graça. Ou é interditado argumentar contra as idéias alheias, principalmente quando essas idéias são políticas, isto é, visam produzir efeitos de realidade? Lucio, entenda este blog como uma aplicação da terceira lei de Newton, no que tange a Reinaldo Azevedo. Tipo assim, eu estava quieto no meu canto, podia estar na rede, lêno, brincano co’s cachorro…aí chegou Tio Rei e pediu para eu escrever sobre ele.

“Tem gente que fica impressionada com textos que são complicados, parece que quem escreveu quebrou muito a cabeça para escrevê-los e por isso merece consideração. Quanta comiseração!”

Francamente, sem querer ofender: se você acha o que eu escrevo assim TÃÃÃO complicado, tenho a impressão de que você é um melhor objeto de comiseração do que este escriba.

“O texto pode ser agradável para aqueles que concordam com o objeto que está sendo atacado e criticado. Esse pessoal acha que você está abafando, por que esta falando mal daquilo ou daquele que eles também não gostam. Mas, essa é somente um tipo de comunicação emocional ou afetiva, que funciona somente para a exaltação narcísica, reservada para adeptos de uma mesma seita. Não tem valor de conhecimento. Você agrada alguns, por que diz exatamente aquilo que eles querem ouvir, mesmo que seja maneira confusa. O que não é um grande problema, mas, convenhamos, é muita limitação.”

O problema é que por mais racionais que sejam os argumentos de um analista, sempre haverá quem esteja tão emocionalmente envolvido com as posições contrárias que se torne incapaz de reconhecer a racionalidade quando a vê. É o que penso ser o seu caso. Por exemplo: no blog de Reinaldo Azevedo é impossível encontrar comentários contrários ao que ele escreve. Sabe porquê? Porque ele os apaga. Não é o que costuma ocorrer aqui, embora ocasionalmente tenhamos que tomar algumas medidas profiláticas contra alguns comentadores que passam das medidas. No mais das vezes procuro argumentar racionalmente com os comentadores, seja nas caixas de comentários, seja em posts escritos especialmente para isso, como esse aqui.

No mais, acho interessante que você não perceba estar usando argumentos que podem ser usados contra qualquer blogueiro, escritor, comunicador etc. É claro que muitos dos que o lêem concordarão, em geral, com o que ele escreve. Outros não _ como é o seu caso. Usar essa trivialidade como ponto de partida para contestar as posições de alguém, convenhamos, é muita limitação de sua parte.

“Ampliar mesmo, qualquer debate e qualquer assunto, acontecerá quando, através da razão se buscará elucidar a verdade. Deixando-se de lado os juízos e arrotos emocionais, que só fazem a queda mental da auto enganação.
Acho que você tem que refletir melhor sobre o que esta falando ou pensando para depois escrever com racionalidade e assim fazer uma comunicação mais universal e verdadeira.

Se você tivesse um pouco de boa vontade _ além de um estilo mais claro, porque “queda mental da auto enganação” parece papo de pastor eletrônico _ perceberia que é exatamente isto que estou tentando fazer.

Eu ficaria bem mais tranquilo, é verdade, se você se dignasse a nos mostrar o que entende por uma “comunicação mais universal e verdadeira“, Lúcio. Me dê um exemplo concreto: quando Reinaldo Azevedo simplesmente mentiu, descaradamente, insistindo por dezenas de posts seguidos em que os países desenvolvidos não possuem mecanismos de classificação indicativa estabelecidos pelo Poder Público, só existindo por lá o instituto da “auto -regulamentação”, e eu provei por A+B que isso não era verdade, OU quando Tio Rei começou com o lero-lero da “reestatização da Vale”, e eu provei por A+B que a privatização da Vale feita por FHC foi de mentirinha, quem você acha que estava fazendo uma “comunicação mais universal ou verdadeira“, eu ou ele?

***

Distrações ocasionais como essas, porém, nos oferecem a oportunidade de tratar de assuntos interessantes. Como estes dois posts do Crooked Timber, por exemplo.

Em um dos posts, o timberita John Quiggin discute a crescente polarização política nos EUA e o papel das mídias, incluindo os blogs, nela. Ele fala de como a hipótese suscitada por Cass Sunstein em seu livro Republic2.0 está errada: nele, Sunstein, professor em Chicago, expõe a opinião de que a crescente disponibilização de meios de “customizar” os fluxos de informação, principalmente em um mundo digital, formaria cidadãos insulados, desconhecedores de outros argumentos que não os que ele já prefere. Quiggin é da opinião de que não foi a internet que evoluiu desse modo, mas sim os republicanos.

O outro post revela dados preliminares de uma pesquisa sobre o comportamento de blogs conservadores e liberais e dos padrões de linkagem entre eles:

Eszter and her colleagues work from a sample of 40 well-known political blogs, and examine how these blogs did or didn’t link to each other over three week-long periods. Like previous studies, they find that the majority of links are between blogs sharing the same ideological position. However, over the three weeks examined, only five of the conservative blogs never link to a liberal blog, and only three of the liberal blogs never link to a conservative one. In general, they find that there is evidence that blogs are somewhat insular (they are far more inclined to link to other blogs like them than to blogs with different ideological positions), but far from being insulated (there still is a fair amount of left-right conversation going on). In general they find “no support for the claim that IT will lead to increasingly fragmented discourse online.”

More interesting still, Eszter and co. do some basic content analysis on the substance of links between left and right wing blogs. They distinguish between (1) ‘straw man arguments’ (their term for yer basic full on attack intended less to persuade than to harangue), (2) disagreements on substance (which offer critiques or refutations of the other blog’s argument), (3) neutral or non-political links (not politically argumentative at all; the example given is an Orin Kerr link to a Talkleft post about a parrot called Marshmallow), (4) redirects or posts which suggest that someone read another blogger on topic x without attempts to agree or disagree with the other blogger, and (5) agreements on political substance. Unsurprisingly, they find that the first category includes a lot of links back and forth – in total, according to my back-of-the-envelope calculations, it accounts for just under half of left-right and right-left links combined. But that also means that slightly more than half of cross-linking blogposts don’t involve scorched earth attacks, but real back-and-forths, and sometimes actual debate. This debate can itself be pretty excoriating to be sure, but it does have Real Arguments and all, something which doesn’t fit well with the standard media account of the blogosphere as a brutish ideological mudwrestling match.

This doesn’t mean that Cass is necessarily wrong; this is a glass half-empty glass half-full debate. Cass can argue that nearly half of all blogposts are exercises in simple pointscoring, people like myself who are more inclined to point to the democratic benefits of the blogosphere can argue back that there is obviously real debate happening at the same time. Really, what is needed to move the debate forward is a better understanding of how the effects of blogs compare with those of other forms of political communication. Here, my understanding is that John is largely correct on one important point. The political science literature strongly suggests that most people don’t have much contact in their daily life with strongly differing political views, and blogs may be the first point of vantage for them on starkly different political views. Two GWU colleagues, Eric Lawrence and John Sides, and myself, are currently writing an article which attempts a first cut at the broader set of issues on the basis of data about blog readers, but you’ll have to wait a little while to see what we have to say on this …

Acho que seria interessante ver um estudo assim aplicado à blogoseira pátria. Posso estar sendo uma vítima de uma ilusão, mas tenho a impressão de que houve uma crescente polarização da mídia no Brasil _ e na blogoseira mais ainda.

***

UPDATE:

O Lúcio foi muito apressado, e antes mesmo que eu acabasse esse post integralmente dedicado a ele, escreveu, EM TRÊS POSTS DIFERENTES, o seguinte comentário:

Cara, que belo comentário, hein?

Estou impressionado com você!

Não deve ter tido tempo para pensar melhor sobre o que eu disse e escreveu este horrível comentário.

Parábens! Prove mesmo que eu tenho razão.

O que aparentemente me dá alguma razão em acreditar que Lúcio é, na verdade, um robô de spam.

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