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Zé Trindade, economista ortodoxo

Meus 3,5 jovens leitores devem desconhecer o personagem, mas existiu, em priscas eras, um comediante relativamente bem sucedido chamado Zé Trindade.  Entre outros bordões de sucesso, havia um que particularmente me marcou: quando acontecia alguma coisa extraordinária (por exemplo, quando passava uma boazuda), Zé Trindade exclamava: “O que é a Natureza!”.

Pois Zé Trindade hoje passaria por economista ortodoxo sem problemas.  Eis alguns trechos de uma reportagem do Valor de hoje, com Claudio Haddad, diretor-presidente do IBMEC de São Paulo:

“Crise atual é da natureza cíclica do capitalismo”

O diretor-presidente do Ibmec São Paulo, Cláudio Haddad, vê com naturalidade a crise que acomete a maior economia do planeta. Para o ortodoxo economista, é normal que os EUA enfrentem uma recessão depois de anos de “alta prosperidade”, em que preços de ativos muitas vezes sobem mais do que deveriam e se cometem exageros na concessão de crédito. “É da natureza cíclica do capitalismo, da economia de mercado”, afirma ele.

O mercado exagera e testa limites, é algo inerente à sua natureza.” Segundo ele, a cada crise aprende-se com os erros cometidos. “Sempre há lições para serem aprendidas em crises como essa” diz Haddad, que vê um crescimento menor para o Brasil neste ano, num cenário de forte desaceleração da economia global.

(…)
A ação do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e do governo Bush não estimula o chamado moral hazard (risco moral, a percepção de que as autoridades vão agir sempre que houver algum problema mais sério)? “Na prática, o moral hazard é um preço que tem que ser pago para evitar um mal maior.” Segundo Haddad, numa situação como a atual, não há como deixar quebrar apenas quem especulou erradamente. A crise se alastra por todo o sistema financeiro, atingindo a economia real. “Nesse quadro, é melhor salvar os especuladores junto com o resto da população do que punir os especuladores e levar junto o resto da população.

Ao contrário de muitos economistas, ele não demoniza as operações complexas envolvendo derivativos de crédito, que tiveram um papel importante no agravamento da atual crise. Haddad afirma que o contágio no sistema de crédito e no consumo americanos mais rápido desta vez por conta desses derivativos, mas lembra que eles tiveram um lado positivo: por meio deles, as pessoas conseguiram mais empréstimos e financiamentos e consumiram mais, incentivando a economia, assim como as empresas geraram mais empregos e aumentaram investimentos. “A parte financeira nunca está divorciada da economia real”, diz ele, ressaltando que é importante corrigir erros, como as avaliações inadequadas de risco feitas agências de rating e as falhas de supervisão cometidas pelos bancos centrais. “É a velha história da ganância versus medo. O mercado está sempre testando as fronteiras de risco, e isso é positivo.”(…).

***

Vamos ver se o Claudio Haddad é um analista econômico com “bias” ou não, como gosta de dizer o Paulo a respeito de gente que tem opiniões diferentes das dele.  Eis um trecho de um artigo da Maria da Conceição Tavares, de 1996, época em que se pedia uma CPI por causa do PROER:

O diretor do Banco Garantia, Cláudio Haddad (ex-diretor do Bacen), em recente matéria na Gazeta Mercantil (“Os bancos no olho do furacão”, em 29/03 p.p.), confessou ter “mixed feelings” sobre a CPI dos Bancos, que apoia como cidadão, mas sobre a qual tem dúvidas pragmáticas como banqueiro, a despeito de reconhecer que não haveria risco sistêmico. O seu medo é de atrasar as “reformas”, o que segundo ele seria ruim para o país.

O Haddad, como vemos, é cheio de mixed feelings, mas para um lado só.

O interessante é que ele reconhece que a taxa de risco aceitável é socialmente determinada.  Por exemplo, em uma entrevista para o Estadao, em 2006:

Em recente seminário, o sr. deu a entender que havia um conluio entre o sistema financeiro e o Banco Central (BC) para evitar a competição do setor.
O que eu quis dizer foi que há interesses convergentes entre as instituições financeiras e o BC no sentido de restringir a concorrência e a competição por novos produtos. Do lado do banco, evidentemente, quanto menos participantes no mercado, melhor. Para o BC, há duas motivações: uma é o controle, que sempre existe em se tratando de burocracia do governo, e o segundo é o receio legítimo do BC de que abrir muito o setor pode significar aumento do risco sistêmico. Junta-se a isso a lei 4595 (que criou o BC e regula todo o sistema financeiro nacional), que é restritiva por natureza.

Que tipo de restrição essa lei impõe ao setor?
Ela foi feita numa época em que o mundo estava muito fechado e havia muito controle. Não havia praticamente produtos com grau maior de risco. E o que essa lei faz é restringir muito a inovação porque qualquer coisa tem de ser registrada no BC. Não é como nos Estados Unidos, onde o banco lança um produto novo sem registrar no BC. Na Lei 4595, você só pode fazer o que é permitido. Ao contrário das leis normais, em que você não faz o que é proibido. É um conceito muito mais restritivo. Claro que a argumentação do BC é que isso poderia reduzir o risco sistêmico. Tem mais risco. Mas tem mais oportunidade e mais ganho potencial para a economia.

***

Como se vê, o que Haddad, “ortodoxo economista”,  diz sobre a crise não é muito diferente do diagnóstico do Soros, esse esquerdista do Foro de São Paulo, segundo o Paulo.  Felizmente, porque isso nos dá a esperança de que realmente vivemos em um mundo real, concreto, não-solipsista.   O “bias” há, é claro.  Mas se manifesta de formas diferentes.  Entre adultos consentidos, porém, o “bias” é permitido, já que se espera que eles sejam capazes de identificá-lo.

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