Há muito tempo venho me convencendo de que contrariamente ao que pensam muitos blogueiros e comentadores, tanto de direita quanto de esquerda, o grande problema para os EUA hoje não são a Al-Qaeda, o Irã, a China ou a Europa. O maior problema para os EUA atualmente é o processo político e cultural em curso na sociedade americana.

Em maio deste ano, um articulista do Financial Times escreveu um artigo em resposta a um seminário patrocinado pelos republicanos em Miami sobre o “iminente colapso da Europa perante o Islã”. O seminário e o artigo tiveram grande circulação, e o Fistful of Euros teve um post em resposta _ falando sobre um possível colapso dos EUA. Entre muitas idéias interessantes, esta é intrigante:

We mentioned the re-direction of resources into the tradable sector of the economy, but will those resources be available in a nation of creationist “science” fairs? Solutions like this one aren’t for duffers.

Infelizmente o link para o “this one” está quebrado. Mas como aponta para o site do World Business Council for Sustenable Development, dá pra ter uma noção do que ele quer dizer (embora eu particularmente não concorde com a excessiva simplificação com que a idéia de um link entre criacionismo e redução do progresso científico é colocada, embora ache que o risco existe e não é pequeno).

O que é mais interessante é que eu não estou só nessa preocupação. Não, parece que ela é compartilhada por parte do establishment republicano, como informa David Neiwert no Common Sense:

I suppose progressives should sit back and enjoy the moment of schadenfreude provided by the spectacle of secular movement conservatives freaking out over the recent ascension of Mike Huckabee’s presidential candidacy. But some important lessons for Democrats and progressives lie therein too, and taking stock of them will play a critical role in their success or failure not just in 2008 but beyond.

The moral to the Huckabee story: You got to dance with the one who brung you.

The conservative movement’s core has always been the pro-corporate, pro-business right, but it has swelled its ranks by wrapping itself in a cultural conservatism, built around the religious right, that attracted the votes of a lot of working-class people. Now the rabble, in the person of Huckabee, are threatening to take over, and the secular right doesn’t like it a bit.

De fato, parece que Huckabee, pré-candidato republicano e ex-governador do Arkansas (hum…), vem crescendo junto ao eleitorado do GOP, e ameaçando as candidaturas já mais cristalizadas de Giuliani e Romney.

Huckabee é um animal estranho. Suas posições políticas oscilam entre o que é geralmente esperado de um republicano, ainda mais um republicano religioso (ele é pastor), tal como a oposição ferrenha ao aborto, ao casamento entre parceiros do mesmo sexo e a pesquisa com células tronco, até opiniões francamente chocantes, como a segregação de pacientes com AIDS e o fato de achar que é um líder cristão predestinado por Deus para ocupar a presidência dos EUA. Mas o que provavelmente mais choca a parte pragmática e pró-businesses do Partido Republicano são declarações como essa:

The most important thing a president needs to do is to make it clear that we’re not going to continue to see jobs shipped overseas, jobs that are lost by American workers, many in their 50s who, for 20 and 30 years, have worked to make a company rich and then watch as a CEO takes a $100 million bonus to jettison those American jobs somewhere else, (…) That’s criminal — it’s wrong.

Não é à toa que, como prevê Neiwert, as longas facas do GOP estão prontas para cortar o tubo de Huckabee. Bem recentemente, Michelle Malkin lhe deu o maior esculacho pela resposta atravessada que um membro da campanha de Huckabee deu às críticas feitas por Rush Limbaugh, santo padroeiro da direita norte-americana _ o que tem toda a pinta de ter sido uma armadilha colocada no caminho de Huckabee pelo establishment Republicano.